DAVID FRIEDRICH E SEU VIAJANTE EMBUSTEIRO

 

É pertinente que a primeira homenagem que eu preste neste Blog seja ao artista alemão Caspar David Friedrich. Afinal, é dele o belo trabalho que tomei emprestado para figurar na capa desta página. A imagem bela e impactante de Viajante Sobre o Mar de Névoa, sempre me encantou, desde a primeira vez que a vi, em um livro de arte. A cena se baseia em esboços de montanhas que Friedrich viu quando esteve na Suíça.

Gostei muito desta descrição da pintura, feita no site Universia Brasil: 

“Na pintura uma figura solitária contempla uma imponente paisagem alpina de cima de um pico rochoso. Nos arredores da paisagem os cumes próximos assomam no mar de névoa que se dissolve, além de uma montanha distante que se eleva sobre a cena, contra um céu luminoso. O autor usa um nevoeiro denso para obscurecer o que está entre as montanhas e, dessa maneira, criar um ar de mistério. 

Tratando-se da composição, o homem retratado está bem no meio da pintura e as linhas na horizontal, tanto de rochedos quanto de encostas e montanhas distantes, todas convergem para ele. O forte contraste de tom entre a silhueta escura do homem no rochedo e a claridade da neblina e do céu aumentam ainda mais o impacto da imagem. 

Teorias afirmam que o quadro talvez seja uma homenagem póstuma a um coronel da infantaria saxônica, devido ao posicionamento da figura central, que se destaca, ereta e heroica, contemplando a cena à sua frente. No entanto, a figura pode ser interpretada de diversas outras formas, como um símbolo do anseio do homem pelo inatingível ou ainda a alegoria da jornada da vida.

Viajante Sobre o Mar de Névoa sintetiza as ideias românticas sobre o lugar que o homem ocupa no mundo, como o isolamento do homem diante das forças da natureza. A imagem tornou-se um ícone do indivíduo romântico.”

 

 

Três detalhes de Viajante Sobre o Mar de Névoa se destacam:

 

 

1. O viajante:

 A figura solitária do viajante é representada de costas para o espectador, o que lhe dá total anonimato. Por sua postura o homem parece calmo e controlado, mas cabe ao observador da obra imaginar a sua expressão ou atitude diante da paisagem à sua frente.

 

2. Mar de névoa:

 

 A bruma esconde grande parte da paisagem observada pelo viajante, estimulando assim a imaginação do espectador sobre o que se vê embaixo do pico onde o homem se encontra. Além disso, a névoa desfoca as montanhas distantes, criando uma sensação de infinito. A névoa tem ainda a função de refletir a luz perolada do céu, dando ao quadro uma impressão etérea, sobrenatural.

 

3. Picos rochosos:

 

 Alguns cumes de montanhas próximas rompem o véu de névoa como rochas recortadas emergindo do mar. Como a bruma obscurece os limites entre esses picos não é possível saber qual a real distância deles. Uma noção de escala pode ser obtida ao observar as árvores minúsculas localizadas próximas a alguns desses cumes.

 

Ficha Técnica - Viajante Sobre o Mar de Névoa:

Autor: Caspar David Friedrich

Onde ver: Kunsthalle, Hamburgo, Alemanha

Ano: 1818

Técnica: Óleo sobre tela

Tamanho: 98cm x 75cm

Movimento: Romantismo

 

23/04/2014, quarta-feira

 

 

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A

 

FARSA E A VERDADE EM "A MORTE DE UM EMBUSTEIRO VIAJANTE"

 

Por Moacir de Souza Filho

 

O que é o palco?

 

Das muitas passagens notáveis de “A morte de um embusteiro viajante” (Penalux, 2016), estreia em romance do cearense Emerson Braga, a pergunta acima é talvez o trecho que melhor defina a obra. Ainda que o xodó do autor seja o retorno (“retornar é o diabo” aparece repetidas vezes, como a nos lembrar de que há ali um inevitável acerto de contas, tardio e rejeitado), é o questionamento a respeito da natureza do espaço cênico que marca o livro. Afinal, é no palco que o ator se realiza em sua plenitude e, sendo um grande ator o protagonista, o palco pode ser traduzido como a própria vida.

 

Será, pois, a vida transformada em espetáculo que os leitores verão desvelada, toda ela resumida na complexa e trágica figura de Lázaro Bardo. Ator em fim de carreira, Lázaro decide despedir-se dos palcos em sua cidade natal, Campos do Jordão, muito graças ao convite de um velho amigo diretor de teatro, uma vez que se encontrava já há algum tempo no ostracismo. Orgulhoso e desapegado da realidade, Lázaro começa a se arrepender de ter voltado à cidade enquanto espera, em seu camarim, a estreia da peça que encenará, "Martelo Agalopado de Sófocles", questionando a qualidade do roteiro e dos companheiros de palco, todos uns “deslumbrados que arrotam textos amadores”.

 

As coisas pioram quando bate à sua porta ninguém menos que Romeu, o personagem de Shakespeare, em carne, osso e renascentistas calças leggings, para anunciar a Lázaro que aquele será seu último dia de vida. Daí em diante, um a um, todos os grandes personagens shakesperianos já interpretados por Lázaro aparecerão para acompanhá-lo em suas horas derradeiras.

 

Apropriar-se da criação do maior dramaturgo de todos os tempos poderia ser grandioso demais para um romancista de primeira viagem, mas Emerson Braga consegue fazê-lo de modo natural. Optando sempre por apresentar a faceta mais aparente de cada um, desde o incurável romantismo de Romeu até a carência senil de Lear, o autor acaba resvalando no óbvio para evitar riscos desnecessários. No final da difícil empreitada, o saldo é positivo, exceto talvez por Macbeth, justo ele, que acaba subaproveitado na trama.

 

É bom que se diga que, mesmo competindo com os mais marcantes personagens de todos os tempos, toda a luz é de Lázaro. Vil, cruel, invejoso e egocêntrico, o velho ator é uma criatura pela qual não conseguimos sentir qualquer piedade, mas que sabe como ninguém conquistar a atenção da plateia. Sua presença é de tal modo magnética que mesmo os seus longos monólogos ao começo de cada capítulo não cansam, apesar de quebrarem o ritmo do texto. De fato, estamos diante de um verdadeiro artista que, por sua vez, está diante da morte.

 

Presente desde o título, a morte não assume papel maior que o de catalisador para a história. Mesmo com os constantes avisos de Romeu, Hamlet e, mais à frente, de Lear, a princípio nada de novo desperta em Lázaro, pelo contrário: a proximidade da morte apenas fortalece suas fantasias ególatras. Se não se percebe propriamente o medo da morte, é porque há um temor maior oprimindo o protagonista, o pavor supremo de (quase) todo artista: o esquecimento. Lázaro não se preocupa com céu e inferno, não nutre saudades antecipadas da vida. Artista reconhecido que é – ou foi –, seu desejo é a imortalidade através da arte. Ou como o próprio diz: “quero viver para sempre em livros e revistas”.

 

São nas reflexões a respeito da arte e da marca que o artista quer deixar no mundo que reside o grande trunfo de “A morte de um embusteiro viajante”. Sempre através do olhar ácido de Lázaro, somos levados pelos caminhos da vaidade artística, que em sua mente doentia se confunde com o próprio talento. “Todos os homens que não sabem direcionar a própria vaidade têm mortes terríveis”, ele diz a si mesmo, “então deverei sofrer uma morte emblemática, memorável”. É notável a importância que Lázaro dá ao sucesso, ao reconhecimento, à memória, como em uma de suas muitas reclamações a respeito da peça: “de onde o Agrela tirou essa ideia de adaptar o conto de um autor que ninguém ouviu falar ou sabe quem é?”. Para ele, só merece atenção aquele que a conquista à força, traço marcante de uma personalidade individualista e cínica que apenas ao final da leitura entendemos como se forjou.

 

E é também no final que entendemos os motivos que levaram o autor a optar por um texto tão teatral, para além da clara relação com o protagonista. Os atos e as cenas são cuidadosamente postos para um resultado catártico que, mesmo carregando um tanto no lirismo, entrega uma curva de desenvolvimento de personagem honesta e crível. O narrador, que na maior parte da obra aparece quase como um intruso, assume a função de traduzir os sentimentos de Lázaro quando monólogos já não são mais possíveis, em um feliz encontro do teatro com o romance.

 

Se em seu famoso solilóquio Macbeth declara que a vida é som e fúria, Emerson nos mostra que ela pode ser transformada em paixão e água, derramando-se pelos muitos palcos em que a encenamos. E faz isso em apenas um dia, um dia louco.

 

Ou melhor, "LOKO".

 

PS.: O conto "Martelo Agalopado de Sófocles", que inspirou a peça no livro, não só existe como é de autoria do próprio Emerson Braga. Confira neste link.

 

Moacir de Souza Filho é editor geral do Escambau, administrador por profissão e escritor por necessidade. Descreve-se como fatalista, mas mantém o coração cheio de esperanças.

 

Obs.: Este texto se encontra disponível na página do Escambau, no seguinte endereço:

http://www.escambau.org/#!A-farsa-e-a-verdade-em-A-morte-de-um-embusteiro-viajante/cjds/5768ed080cf298ca495e402d

 

21/06/2016, terça-feira

 

 

ESTROFES QUE PARECEM HABITAÇÕES LACUSTRES

Considerações sobre o livro Palafitas, da poeta Luiza Catanhêde

 

                  Há algumas semanas pude, finalmente, iniciar a leitura do livro Palafitas, da poeta maranhense radicada em Teresina-PI, Luiza Catanhêde. Pensei em deitar-me sobre a cama e devorá-lo em um único dia. Porém, logo no segundo poema, intitulado Libertino, os seguintes versos desviaram o destino de minha leitura:

 

“Meu poema come

o resto do banquete,

tateia no escuro o ventre

da estrela Dalva”

 

         Fechei imediatamente o livro. Tal arranjo lírico não poderia ser desperdiçado longe do mundo que o havia inspirado, não fora feito para ser lido de uma vez, na solidão de um quarto. Decidi, então, que desbravaria a coletânea poética a caminho do trabalho, dentro do ônibus lotado que todos os dias me leva ao Centro de Fortaleza. Eu precisava sentir aqueles versos junto às pessoas, permitir que elas me vissem extasiado, apesar da inconveniência espacial que nos constrange em nossa rotina. Enfim, eu queria que os passageiros me lessem e, ao fazê-lo, experimentassem de meu deleite ao ler Palafitas.

        

 

Li repetidamente os versos do poema As águas vão rolar, alternando o ritmo até descobrir o movimento do rio que se move sob estrofes que mais parecem habitações lacustres:

 

“A vida não para

enquanto o poeta

garimpa ouro nas águas

do improvável”

 

         São versos que revelam o tempo da poeta, tempo que corre diferente do das demais pessoas. Luiza Catanhêde nos afoga sem sofrimento em um lirismo que toca questões dolorosas.

 

Em Plantio de água, me deparei com uma das joias mais belas desse bem incrustado tesouro:

 

“Sou feita da lamparina

sobre a mesa que passeia

na casa inundada.”

 

         A poeta nos ilumina ao mesmo tempo em que joga luzes sobre a dor dos desvalidos, descortina o sofrimento de gente que luta com a mesma dignidade que pulsa nos versos de Palafitas. A poesia de Luiza nasce contra todas as expectativas, seus versos desabrocham no seio da mulher simples, filha de lavradores, que se identifica no poema A cabaça como “(...)esse fruto no avesso da terra plantada”.

 

         Do alto das palafitas poéticas de Luíza, o olhar que se debruça constata que as águas da obra também carregam um amor maior que toda a miséria presente no mundo. Um amor desavergonhado, que não se rende a convenções sociais, o que é explicitado em Transgressões.

 

         Luíza Catanhêde também rompe com o estigma castrador de que toda mulher deve enclausurar sua feminilidade na condição de santa dadivosa. Nos três versos de Plebe, a poeta nos apresenta a feminista, a mulher que não se submete a rótulos. E isso se dá como se Luíza descobrisse mais sobre si mesma à medida que escreve versos como os do poema Além do físico:

 

“Sou possuída por este lastro de

Desconforto, tatuando em mim

O que desconheço.”

 

Palafitas é um conjunto de declarações de amor, de combates dignos e coragens emblemáticas, que nos inspira corpo e alma no poema FórcepsPalafitas é o desmantelamento da ordem vigente, a revelação do que vai sob águas turvas, como lemos em Devoção ao desconhecido. É um livro para ser lido junto ao povo, pois a ele pertence. Tenho certeza de que, em minhas idas e vindas de ônibus, em Fortaleza, algumas pessoas devem ter notado minha expressão, mergulhado em meu contentamento e pensado: “Preciso beber dessas mesmas águas”.

 

Emerson Braga

 

30/03/2016, quarta-feira

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179 MOTIVOS PARA LER MARCO AURÉLIO VIEIRA

 

Por volta de setembro de 2015, um poeta muito querido perguntou se poderia me enviar três antologias que reuniam sonetos de sua autoria. Bem, tive motivos de sobra para exigir que ele o fizesse, afinal, sou apaixonado por sonetos e o poeta em questão era ninguém menos que Marco Aurélio Vieira. Além de um grande amigo, trata-se de um dos escritores vivos mais talentosos que já tive a oportunidade de ler. Mineirinho avesso a idiossincrasias, esconde esse moço explosões cataclísmicas de paixão e revolta, de alegria e indignação. Seus versos não nos tocam; na verdade, atravessam carne e ossos, nos arrancam sensações físicas e emoções das mais variadas.

 

O primeiro tomo, intitulado Sonetos em Conflito, reúne 85 poemas selvagens, que transformam angústia, desespero, melancolia e ira na mais soberba expressão de lirismo.

 

No poema A Chama e o Vento, lemos os seguintes versos:

 

“Pois já não suporto este sopro impudico

Do vento covarde que suga-me a luz”

 

É um poetar ferido de morte, arquejante, mas que não abandona nunca o sarcasmo feroz, como constatamos no verso “Vou me afogando nesse mar de santos”, presente no soneto O Vingador.

 

Marco Aurélio devota boa parte de seus textos a causas sociais e não cansa de espantar-se e sublevar-se diante das iniquidades que vilipendiam minorias. Para nosso maravilhamento como leitor, as mesmas injustiças sociais que ferem o poeta também alimentam sua verve poética revolucionária, como vemos nos seguintes versos do poema Babel:

 

“Na borboleta exausta da esperança,

A fera intolerância grassa, avança”

 

Seus sonetos não refletem queixas vazias, lamentos inócuos. Todos os poemas trazem, mesmo que nas entrelinhas, o bramido que exige a reparação do mal praticado, que impetra a devida punição àqueles que segam os brotos da esperança. A dor não é porque simplesmente dói. A dor se deve ao desejo legítimo de sarar, e jamais abrir mão da cicatriz.

 

Já em Sonetos em Harmonia, o poeta nos convida ― por meio de 48 poemas ― à contemplação do belo, ao frescor dos versos que parecem vivos, como no soneto O Poema e o Poeta:

 

“Rodopia o poema ao redor do poeta

A marcar, bailarino, seu próprio compasso”

 

Sua poesia cria autonomia, identidade, e se utiliza do poeta para afirmar-se diante do mundo. São versos hedonistas que rejeitam regras sociais caducas e padrões pré-estabelecidos por senhores apegados a bulas rotas: “Ah, quem me dera nunca mais o austero e o reto”, como lemos no poema Voo Sem Asas.

 

O poeta dá um novo sentido aos vocábulos, transforma-os, corrompe-os para libertá-los dos conceitos e preconceitos que carregam: “Cada palavra, encantado castelo, ninho de letras, morada feliz” (Soneto Singelo).

 

E, depois de aguçada nossa sensibilidade para as coisas do bem querer, Marco Aurélio nos escancara completamente as portas de sua alcova literária e deitamos enamorados sobre seus Sonetos Românticos. São 46 poemas ardentes, sensuais, que sussurram, murmuram, enquanto os versos de suas estrofes se misturam em um aconchego promíscuo.

 

No poema Delírio, podemos ler:

 

“Adejar então meu corpo em cada fenda

do teu corpo que ilumina o mundo em breu...”

 

As imagens orgásticas revelam-se como grandes lábios que se abrem para receber beijos de amor. Sem pudores, ausentes limitações morais esterilizantes, os versos gozam, suados, ungidos. Todavia, a sexualidade presente neste terceiro tomo não é feita apenas de gemidos plangentes, mas também de lucidez, como observamos neste belíssimo verso do poema A Nudez:

 

“E ao desnudar-te a humanidade, acordei”

 

Marco Aurélio Vieira é poeta, é artesão da língua, pois transforma nosso idioma em sublime manifestação artística.

 

Em suas três compilações de sonetos, há 179 bons motivos para lermos os versos desse homem que, cansado da humanidade que tanto o intriga e decepciona, transmudou-se em lirismo, poesia, luz.

 

11/03/2016, sexta-feira

Emerson Braga

 

 

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Creio que um dos maiores desafios que um escritor enfrente em sua jornada criativa seja o de passear em território além de sua zona de conforto, por outros gêneros literários. Marco Aurélio Vieira é um poeta mineiro que há tempos me surpreende e me comove com seus sonetos sonoros, quase táteis, de tão vivos que se revelam os versos.

Em seu conto O Rito, o poeta envereda pelo texto em prosa sem deixar-se intimidar pelo gênero com o qual tem pouca intimidade. A simplicidade com a qual a narrativa se constrói rivaliza com a estranheza e incômodo que ela nos causa, provocando a náusea que muitas vezes ignoramos por convicção religiosa ou por preguiça social.

O Rito, de Marco Aurélio Vieira, é um conto para quem não teme a verdade, por mais repugnante e escandalosa que ela seja. Afinal, o monstro não deixa de existir apenas porque decidimos fechar os olhos.

 

Emerson Braga

 

O RITO

 

Dia ensolarado numa cidadezinha pacata e piedosa do interior, onde, em meio às ruas estreitas, casas sem muros e quermesses na pracinha à frente da igreja, ainda existia a inocência.

Mundinho, ô Mundinho, espera! Tenho que te contar uma coisa.

O menino já estava do outro lado da rua, quando seu amigo Acácio o chamou. Tinha pressa, ia comprar o remédio da avó adoentada.

O que foi, Acácio, que apavoramento é esse?

Sabe aquele negócio que te contei?

Qual dos negócio? Cê me conta um tanto!

Aquele, de bater punheta, que é pecado... Pois então, minha mãe me obrigou a ir confessar com o padre Amadeu, lá na casa paroquial. Aí eu contei tudo pra ele...        

Cê contou? Cê é doido?

Sim, contei tudo. Contei que faço isso um monte de vez por dia, desdo fim do ano passado, que gozei da primeira vez.

E ele não te excomungou?

Não! Por isso que vim atrás docê, porque sei que ocê também sente medo quando faz isso, que sua vó falou que menino que faz indecência vai pro inferno. Ele fez umas reza, uma coisa lá e disse que tava puxando o pecado de mim; mas falou que eu não posso dizer pra ninguém, senão a reza falha e o castigo vem maior ainda. Mas cê é meu amigo, procê eu falo sim. Vai lá, sô! Cê sai de lá perdoado, limpo de pecado, pode até fazer de novo. Ó, não conta que eu te falei nada não, hein?

Ah, eu vou, eu vou! Pó deixar, não vou contar nada.

 

Quarenta anos de sacerdócio. Padre Amadeu já estava cansado das senhorinhas beatas que o rodeavam feito mariposas na luz com tagarelices bobas, irritantes e  que passaram pela vida absolutamente incólumes ao senso crítico, embora ele não dispensasse convites para almoços ou aniversários infantis em suas casas. Adorava-os! Gordo, lento, com dores pelo corpo, vivia perturbado, se questionando quanto ao préstimo ou não de ter cedido a própria existência a um rebanho tão estulto. Ah, mas foi por amor à humanidadeconfortava-se. Contudo, no fundo, no fundo, sabia que foi também, ou principalmente, para estudar e comer do bom e do melhor de graça, para dormir numa caminha aconchegante, para usar banheiro com descarga, para tomar banho de chuveiro quente... Antes do seminário, vivia na miséria. Ter caído nas graças do velho padre Bento, na humilde igrejinha de sua terra, abrira-lhe as portas da ordenação. Espantava os sussurros de culpa que o infernizavam, pois tudo o que a Arquidiocese lhe concedera, devolvia em dobro, quando fazia mentiras se tornarem verdades, contrariando suas convicções mais íntimas.

 

Nas tardes de sábado, ficava especialmente satisfeito. Era dia de catequismo e fazia questão de dar as aulas, pois gostava muito das crianças, verdadeiros alentos à sua vida insossa. Chegou à casa paroquial ainda sorrindo, lembrando das gracinhas dos alunos. Preparou seu chazinho e já se ajeitava para o repouso de sempre, quando a campainha tocou. Fez careta, balbuciou algumas pragas, mas foi atender. Era Mundinho:

Oi, padre Amadeu, eu queria confessar com o senhor.

Mas agora, menino?

É porque eu tive coragem agora.

Tudo bem, pode entrar. Você é o Mundinho, neto da dona Olga, não é isso?

Sim, sou.

Sentaram-se um diante do outro. O menino se incomodou um pouco com a iluminação precária do lugar, quase penumbra. Observou rapidamente a mobília antiga, o grande armário de madeira escura à sua frente, as caras chorosas nos quadros de imagens sacras, dependurados nas paredes pintadas de cinza claro, as várias peças douradas e prateadas. Tudo bonito e triste. Ah, ficou impressionado.

O que o traz aqui, menino?

É que... Ah, eu tenho vergonha.

Não precisa ficar com vergonha, você está na presença de Deus e Ele perdoa tudo!

É que todo dia, quando tô tomando banho, eu... eu...

Sei, sei. Você fica brincando com seu piupiu, não é?

Como o senhor sabe?

Ora, eu sou um representante de Deus na Terra. Eu sei de tudo! Quantos anos você tem?

Treze.

Ah, com essa idade o perdão vem mais fácil. Não se preocupe, filhinho, que vou purificá-lo, vou sugar o seu pecado para mim, porque tenho mais intimidade com Deus. Mas ouça bem! Jamais! Jamais conte a quem quer que seja sobre o que acontecerá aqui, está certo? Se contar, você receberá um castigo terrível, será expulso da casa de sua avó e até da cidade! Até do mundo!

Os olhos de Mundinho pareciam prestes a escaparem de seu rosto, de tão arregalados! Estava em pânico! Mas não dava mais para voltar atrás. Padre Amadeu, com uma dificuldade humilhante, entre gemidos e esgares pavorosos de dor, ajoelhou-se diante do menino, que permanecia sentado numa confortável cadeira. Ordenou-lhe que tirasse o short e a cueca e abrisse as pernas, ordem esta afoitamente obedecida. Pronto. Iniciava-se o rito. O líder religioso se apossou do virgem órgão genital, àquela altura já entumescido, rijo e latejante, apertando-o com todos os dedos da mão esquerda e esfregando-o para cima e para baixo. Ergueu a cabeçorra, olhou para Mundinho, viu que ele gostava do que acontecia ali. Imediatamente, resfolegando, arfante como fera exausta e faminta, abocanhou todo o seu pênis. O menino se assustou, pensou por um momento que o padre iria mordê-lo até arrancá-lo de seu corpo, mas logo relaxou, percebeu que o velho apenas o chupava; com enorme voracidade, mas apenas isso. Estava gostoso demais sentir a língua, as bochechas fofas, úmidas e quentes envolvendo aquela sua parte tão preciosa. Não conseguiu mais segurar, expeliu seu pecado ralo na garganta do sacerdote, que o bebeu todinho, com extrema gana. O rito estava concluído.

 

Os instantes seguintes se fizeram no mais absoluto silêncio. Ouviu-se apenas os gemidos de Amadeu, enquanto se recompunha da genuflexão. Mundinho se vestiu ligeiramente, ainda espantado com tudo aquilo, mas aliviado também. Estava leve,  limpo, estava livre de seu pecado! Nunca sequer imaginou que fosse tão bom se livrar de um pecado. Quando saiu, escutou o padre dizer, com o rosto encostado na porta quase fechada:

Se pecar de novo, filhinho, pode voltar.    

 

Marco Aurélio Vieira

 

 

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A ENGENHOCA LÍRICA DE UM INVENTOR DE INSTANTES

 

         Cícero Almeida é um poeta na excelência da palavra. Diferente de escritores pomposos que vomitam academismos, Cícero é um contemplador das pessoas, da natureza e das cidades. Observa o movimento dos organismos e então os eterniza em versos, para deleite de quem se debruça sobre seus escritos, impregnados de amor e devaneio, tomados por indefectível caráter idealista.

 

         Máquina de Inventar Instantes, seu livro de estreia, é um instigante relato da invenção de si mesmo.

 

         Na primeira parte de sua obra poética inaugural, Cícero revela um debutar para a poesia, a experiência de encontrar-se por meio das palavras, apesar da “palavra ser coisa de esconder”, como diz em um dos versos do poema Guardador de Silêncios.

 

Em um segundo momento, o poeta compartilha com seus leitores experiências cotidianas, vividas junto à natureza e à cidade. Enfim, a percepção íntima do mundo que o cerca. “O amor é feito de instantes gastos”, nos diz Cícero no poema Eu, Ela e a Cidade. E é realmente essa a sensação que temos ao desvendar as entrelinhas de seu trabalho. O poeta não nos fala de amores idealizados, tomados por rompantes apaixonados e uma eterna sensação de novidade. Não, não é esse tipo de amor que move a escrita de Cícero Almeida. Seus versos revelam como a rotina e o enfado podem ser belos para aqueles que “têm na ponta dos dedos a alma do mundo”. Assim nos ensina em A Porta, sinuoso poema dedicado a Djania Beserra.

 

         A linha de produção do belo não para, o livro tremula em nossas mãos e exige um olhar que lhe dê significado, destino.

 

Já no terceiro momento de suas invenções, a máquina de Cícero detém-se na produção de um amor tão simples que não se dobra à complexidade de um mundo que retrata selfies e revela solidões. Um amor desobrigado, sem adereços. Um amor sem disfarces, franco, honesto. Amor que, através dos versos do poeta, em Experiência Anterior, nos revela que “o equilíbrio é uma ilusão horizontal”. Enfim, o caminho para nos encontrarmos é aquele balizado pelo amor que direcionamos a nós mesmos e a outro ser com o qual nos horizontalizamos em busca de um pouco de mágica (para desagrado de uma realidade esvaziada e escravizada por técnicas inábeis).

 

         Em seus últimos estalos sobre a breve eternidade das pessoas e das coisas, as engrenagens de Cícero nos confessam algo intrigante: Também é ele um instante inventado pela poesia que cria.

 

Na quarta parte de seu livro, o maquinário lírico fecha a sucessão de ciclos revolucionários que se iniciaram nas primeiras páginas, com o poema Gênese. E é justamente neste instante de fechamento – encerrado com Último Instante – que percebemos o quanto é simbiótica a relação do poeta com sua pena. Cícero não apenas é o artista arteiro que conhecemos, é produto humano da arte que não se dobra a observâncias esterilizantes.

 

De tanto inventar poesia, tornou-se o poeta máquina humanizadora de palavras austeras. É ele não um autômato, mas homem essencialmente livre. A cada instante.

 

 

Emerson Braga

11/02/2016, quinta-feira

 

         

 

 

 

 

 

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PREFIRO FICAR COM AS GAY

 

         “Eu não me importo que meu amigo seja gay, contanto que ele não dê em cima de mim”. Quem aqui nunca escutou essa máxima não sabe o constrangimento que é viver em uma sociedade heteronormativa.

 

Apesar de a declaração ser notoriamente um paradoxo, ela é aceita por muitos como incontestável regra social. Tudo bem. Vamos falar de regras sociais, mas não sobre essas que endossam o mainstream. Quero falar das regrinhas undergrounds, daquelas ignoradas, marginais.

 

         Eu não conheço um único gay, unzinho que seja, que jamais tenha sido cantado por caras que se identificam como heterossexuais. E isso acontece com mais frequência do que muito pai orgulhoso do filho machão gostaria de acreditar. Porém, o assédio heterossexual não é repudiado pela maioria dos gays, que tomam essas cantadas como prova incontestável de que são mais fechadoras que azamigas.

 

         Colega, a cantada do cara heterossexual não é um elogio, é uma declaração de poder. Quando o boy “hétero convicto” chega pra você e diz: “Eu nunca fiquei com outro cara, queria fazer só de sacanagem, pra ver como é, blá, blá, blá...”, ele não está te dizendo que você é linda e maravilhosa. Na verdade, o que ele diz é que ele pode te cantar, ele pode chegar junto, ele pode decidir quem será o passivo e o ativo, porque é ele quem dita as normas do regulamento social vigente.

 

         Sabe por que os caras héteros ficam tão putos quando são cantados por gays? Pela mesma razão que eles não sabem como reagir à cantada de uma mulher: Porque cantada é um mecanismo de opressão sexual, e os machos alfa comilões, os predadores de pau na mão, sabem disso. Duvida? Então experimente rejeitar a cantada. Do nada, em um passe de mágica, você deixa de ser uma pessoa atraente e se torna o viadinho-filho-da-puta-fodido-do-caralho-que-merecia-levar-paulada-até-morrer. Com as meninas, não é diferente. Aceitando ou não a cantada, todas são putas. Todas. É por isso que o homem heterossexual que dá em cima de todo mundo não curte levar cantada, porque recebê-la subverte a realidade social na qual ele vive confortavelmente: A de poder oprimir e nunca ser oprimido.

 

         Muitas bichas fantasiam romances gays com caras héteros. E, mesmo que esses romances se concretizem, não deixarão de ser apenas uma tola idealização. Se o cara não te assume, se o cara te esconde como um segredo sujo e vive falando por aí que viado é isso e aquilo, então você não tem um romance, você tem um problema. E dos grandes. Caras assim podem te ferir gravemente. É sério.

 

         Não conheço um viado que já não tenha se apaixonado por um cara hétero. Eu também tive minhas paixões platônicas na adolescência. Mas, depois que comecei a entender porque eu me sentia atraído por héteros e não por outros gays, minha visão de mundo mudou totalmente. E o direcionamento de meu afeto e tesão também.

 

         Nós nos apaixonamos por héteros ― geralmente os mais estúpidos, covardes e manipuladores ― porque queremos, mesmo que inconscientemente, fazer parte da regra, da maioria. Amar um hétero é viver os louros da heterossexualidade através do outro. O que é uma bobagem. E o pior é que temos esse maldito hábito de optar pelos canalhas. Talvez façamos isso para nos vingarmos da pequenez machista ou por acharmos que merecemos ser punidos. Não sei. Tudo que sei é que relacionamentos em longo prazo com caras héteros (sejam eles babacas ou não) tendem a acabar mal. O cara um dia vai embora, ele nunca esteve de verdade na sua. E você, sozinho, terá que recolher os próprios cacos e partir em busca do próximo sujeito que irá novamente despedaçá-lo.

 

         Eu não me importo que meu amigo heterossexual dê em cima de mim, mas, sinceramente, prefiro ficar com as gay. Não existe nada mais libertário do que namorar alguém que passou pelas mesmas barras que você e, no entanto, está ali, te fazendo rir enquanto imita a Cláudia Leite ou faz um lip sync da Sia. É maravilhoso dividir a vida com alguém que não te esconda em um hiato, que te assume, que vai às paradas pela diversidade e, a seu lado, de mãos dadas, grita palavras de ordem, exigindo um mundo mais tolerante. Tudo bem que heterossexuais machudos e homofóbicos geralmente são passivas in-crí-veis, mas ficar com eles é permitir que continuem a nos oprimir enquanto se alimentam clandestinamente de nossa coragem de ser quem somos.

 

         Da próxima vez que um cara hétero te cantar, diga apenas: “Não, obrigado. Primeiro resolva seu problema, descubra o que quer realmente e só então venha falar comigo sobre treparmos como se o mundo fosse acabar”.

 

         Homem que é homem não canta outro homem. Mas também não canta as meninas. Homem que é homem sabe o que quer, seja ele gay ou não. E quem sabe o que quer não ofende seu objeto de desejo com uma abordagem opressora.

 

Que se foda a cantada! Cantar, como diria Cazuza, “só se for a dois”!

 

Emerson Braga

05/02/2016, sexta-feira

       

 

 

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                                                                            ATRAVÉS DO ARCO

 

Sobreviveram à tempestade? Era o que a família Fortuna se perguntava em silêncio, envenenada por constrangedora agonia. Todos apenas esperavam, esperavam.

Mara e Miro saíram às escondidas a fim de resgatar a gata Sinhá que, desde o dia anterior, havia se embrenhado no mato. Inconsoláveis com o sumiço do estimado bichano, as crianças decidiram pela missão de resgate ao ouvir da boca do pai que Sinhá provavelmente havia sido devorada por um porco-do-mato.

― Miro é tão tímido, tão frágil.  Se pega uma pneumonia, há de morrer por essas matas sem que eu torne a beijar-lhe as faces tão pálidas ― lamentava dona Pepita Fortuna, mãe das crianças, abraçada ao marido.

― Não se avexe, senhora. Mara é esperta, conhece cada pé de urtiga dessas bandas. Ela há de retornar sã e salva a casa antes que Miro passe por alguma privação ― disse Dourado, primogênito dos Fortuna, constrangido por não ter cuidado dos irmãos menores.

         Em um desses pressentimentos maternais, dona Pepita girou a cabeça na direção da janela que dava para o quintal e avistou duas crianças que se aproximavam. Uma delas trazia em seus braços, viva e segura, uma enlameada gata Sinhá. Já a outra usava uma vara, talvez para proteger-se das feras.

― São eles! ― gemeu a mulher antes de correr na direção dos pequenos, seguida por um tropel de curiosos que havia passado a noite em vigília.

Antes de se atirar sobre as crianças e envolvê-las em um abraço de raiva e alívio, dona Pepita deteve-se diante delas, ressabiada. Sim, eram seus filhos. Coração de mãe não se engana sobre a própria descendência. Mas, de algum modo, também não eram Mara e Miro. Não eram.

Dona Pepita olhou ao redor e viu que todos os presentes partilhavam do mesmo espanto. Mara e Miro haviam mudado. Mas, como aquilo seria possível?

Dentro do vestidinho azul ainda resistiam as mesmas feições. O nariz atrevido e os olhos de quem vê o mundo por debaixo das pernas de um mágico. Mas a menina havia desaparecido. Mara agora era um menino. Como, um menino? Ora, um menino! E Miro? Miro também continuava lá, dentro da blusinha de flanela e do calção marrom de brim. Semblante assustado, queixo pontudo, boca fina e bem feita. Mas ele não era mais ele. Havia se transformado em uma menina.

― O que houve? O que se passou com vocês? Com quem estiveram na mata? O que lhes fizeram?

― Não vimos ninguém, mamãe. Só nós e a gata. Nós e Sinhá.

Assustada, dona Pepita temeu que todas as leis divinas, de repente, ruíssem. Tomou com violência o felino em seus braços e verificou clinicamente o sexo do apavorado animal.

― Esta ao menos continua como veio ao mundo. Mas, e quanto a esses dois? Fortuna, senhor, diga alguma coisa!

O que diria o homem? As crianças haviam saído de um modo e retornado de outro. Coisas fantásticas costumam acontecer após uma tempestade. Novas espécies de animais são descobertas, mulheres estéreis engravidam, sapos voam e pessoas mudam para sempre. A lógica com a qual todos estavam acostumados fora apresentada naquele dia com uma charada sem resposta. Sem resposta? Não. Aquele não era esse tipo de enigma.

         ― Passamos por debaixo de um arco-íris. Foi lindo, mamãe! Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta brilhando no céu como estrelas coloridas ― falou Miro entusiasmado, enquanto suas palavras eram ditas por uma voz que não era a sua e saíam de um corpo que não era o seu.

― Estávamos perdidos, Dourado. E só encontramos o caminho de casa depois que passamos através do arco. O arco-íris nos salvou! ― comemorou o menino no qual Mara havia se tornado.

         Estava feito e sem remédio. Mara seria pelo resto da vida um menino. Miro jamais deixaria de ser uma menina.

Aos poucos, a pessoas se deram conta de que não havia problema algum em aceitá-los daquela forma. Ambos continuavam as mesmas crianças. Independente do que lhes havia acontecido, o que importava de verdade era que não estavam mais perdidos. Estavam vivos.

         ― Por que vocês dois parecem tão satisfeitos? Será que não percebem? Não veem? Foram trocados! Não são mais meus filhos! Não são! ― gritou dona Pepita como faria a louca que jamais fora, esquecida do amor incondicional que professava. ― Olhem para vocês! É errado... Não posso conviver com isso. Tragam-me o arco-íris aqui! Que essa maldita aquarela celeste devolva meus filhos! Eu quero Mara e Miro! Mara e Miro! A vocês dois, nem sequer sei como chamá-los.

         Após o surto materno, os caçulas da família Fortuna se encararam como se não entendessem as queixas de dona Pepita. Não sabiam do que ela falava, de que troca, de que mudança. Mara e Miro, mesmo antes do arco-íris, sempre foram daquela forma, daquele jeito. Mas, antes da tempestade, ninguém havia se dado ao trabalho de enxergá-los como realmente eram. Jamais haviam feito questão de percebê-los.

         De repente Sinhá disparou no meio das pessoas e pulou a janela para dentro de casa. Mara e Miro seguiram-na contentes, às gargalhadas. A gata ― atemorizada pelo alvoroço da curiosa multidão ― não entendia o porquê de tanto alarido por motivo tão tolo, tão besta.

Sinhá não era tonta. Gata escaldada.

 

Emerson Braga

 

04/02/2016

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AS MUITAS FASES DE LUA DE PAPEL

 

         Estou regressando de uma viagem feita em duas etapas. E a fiz sozinho, durante as madrugadas marginais que se sucedem em meu quarto.

 

         Livros são como terras estrangeiras, com idiossincrasias e linguagem próprias. Ler os dois volumes de Lua de Papel foi como assimilar um novo idioma por meio de uma bela história, contada com sensibilidade e franqueza pela intrigante escritora Lunna Guedes. Uma trama alinhavada com acuidade, que costura o tempo e o espaço de suas personagens a nosso curioso olhar de leitor.  

 

         Trevas e luzes revezam-se sobre as páginas que muitas vezes me pareceram um estranho diário, que conta a história não só de suas personagens, mas também a história daquela que o escreveu e a de quem o lê. Sensual eclipse que amalgama todos os envolvidos no processo de leitura.

 

É impossível não nos deixarmos atrair pelo magnetismo desse origami cósmico, cujo brilho se revela por meio de palavras escritas sem pressa, permeadas por silêncios escandalosos. Os caminhos parecem tão comuns e verossímeis que poderiam servir para a jornada de qualquer pessoa ― o que nos deixa mais íntimos das aguçadas linhas de Lunna Guedes. ― Porém, logo surgem os entroncamentos, bifurcações, becos sem saída, abismos e plataformas de voo. A leitura transforma-se em uma dança parecida com a vida: Surpreendente, imprevisível.

 

Em Lua de Papel não há crateras. Finas entrelinhas recobrem sua delicada superfície e formam imagens que ora parecem próprias do livro, ora reflexos de nossa humana solidão.

 

Lunna Guedes não teme ser um satélite na imensidão do universo. Daqui onde estou, logo após a leitura, ainda aprecio o brilho reluzindo sóbrio, verdadeiro e vivo, sobre as muitas fases de Lua de Papel.

 

Emerson Braga  

 

04/02/2016, quinta-feira

 

 

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O POENTE, O POÉTICO E O PERDIDO

 

Partida e chegada nos parecem palavras antônimas, não é mesmo? Porém, na antologia poética da talentosa escritora Ana Cláudia Marques  o livro O poente, o poético e o perdido  os dois vocábulos se complementam, interagem em uma simbiose alimentada por pranto e riso: Deslocamento no tempo e no espaço que mistura as lembranças da autora às nossas próprias reminiscências.

 

Ana Cláudia nos apresenta versos que trazem a marca intimista dos diários secretos, das verdades inconfessas que guardamos sob o sorriso social que tantas vezes disfarça e negligencia o que por dentro corre caudaloso. Muitas vezes, a superfície calma esconde tormentas, tremores, ressacas. O que não impede belíssimos dias de sol em tantos de seus poemas.

 

De todos os gêneros literários que a poeta poderia ter se valido para relatar suas vivências, sem dúvida a poesia foi o veículo mais acertado. Apenas a poesia é capaz de nos trazer o perfume das flores de cerejeira, o tilintar de porcelanas chinesas. Em O Poente, O Poético e o Perdido, Ana Cláudia costura com maestria partida e chegada. Talvez por isso terminemos de ler seu trabalho como se houvéssemos chegado a um determinado destino. E, acreditem, é um bom lugar para se estar.

 

Emerson Braga

 

19/01/2016

 

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UM HOMEM INÚTIL

 

Não! Independente do uso, não tenho aptidão para atender às demandas do mercado. Sou um homem inútil. Eu não sirvo para esta preguiça contemporânea que rejeita a diversidade das pessoas e das ideias, que teme e impugna revoluções. Nossa modernidade anseia pelo efêmero e instantâneo, o que me torna um fardo. Eu não sei emagrecer, aprender ou amar se não for por meu esforço próprio. Minha inutilidade me priva de soluções imediatas e receitas mágicas. E ser inútil me exclui do convívio com os seres humanos práticos que reverberam seus discursos pré-moldados e gentilezas ególatras como quem salva a vida de um inocente. O aplauso! A glória!

 

Eu, paspalho baldado, sempre demoro a encontrar uma paisagem que me agrade. Padeço de vergonha por não ser igual àqueles que sorriem para mil selfies e compartilham em redes sociais suas vidas oportunas, apesar de plásticas.

 

Ah! Que aborrecido é não ser um destes mártires indispensáveis que tentam salvar um rio tóxico com orações e punhados de sal! Como invejo homens profícuos que poupam do estupro mulheres que consideram feias! Homens que reorganizam a educação de um estado fechando escolas e surrando estudantes. São todos eles essenciais, engrenagens de uma máquina maior que sustenta este mundo que, desde o mais remoto passado, nos promete tornar-se do futuro. Nosso mundo de coisas e pessoas ― mesmo que à força ― colocadas em seu devido lugar.

 

Sou um bosta. Um nada. Não presto sequer para promover cultura. Muito provavelmente eu não saberia vender canções ruins. Também não teria coragem de covencer as pessoas de que meu barulhinho óbvio, na verdade, trata-se de uma expressão sincera da música popular brasileira. Eu não tenho talento para escrever sobre vampiros vegetarianos que brilham ou quartos vermelhos da dor. Não saberia repetir fórmulas exauridas com o simples propósito de entreter mentes acomodadas enquanto enriqueço editoras mercantilistas. Meus cadernos só abrigam histórias que quase ninguém quer ler. Uns rabiscos cansativos, enfadonhos, sem a leveza e fácil digestão naturais nos livros de autoajuda que comercializam mofinos e sintéticos modelos de vida, que entopem as pessoas de soníferos. E todos dormem, e todos sonham, e tudo se faz maravilhoso!

 

 Reconheço. Sou perfeitamente desnecessário para a manutenção desta vida que só vive à custa da morte cotidiana de tantas outras pessoas também supérfluas. Autômatos só tem alguma serventia enquanto máquina servil e de fácil operação. Dizem alguns que o advento da inteligência artificial confere autêntica ameaça ao futuro da humanidade. Parece-me que o mesmo acontece quando homens inúteis começam a ansiar por autonomia e fazer discursos para os demais escusados. Homens inúteis não foram projetados pelo sistema para pensar. Tornam-se tilts ameaçadoras quando o fazem. Não há aplicação prática para discernimento e racionalidade em um mundo que escolta os passos de paixões aleijadas e se deixa guiar pelos olhos da fé cega.

 

Sou um traste, um daqueles utensílios de cozinha que ninguém quer tirar das caixas por não saber como usá-lo. Tornei-me inútil por que a maioria das pessoas prefere me reter no armário ou me atirar de vez no lixo a aceitar que minha existência tem seu independente emprego. A humanidade acostumou-se à praticidade de coisas previsíveis e ninguém quer perder tempo com manuais de instrução. Também não permitem que o objeto-homem-inútil explique-se a si mesmo. Preferem chamar o que não entendem de excesso.

 

Gostaria de fazer mais pela sociedade que me suporta, apesar de minha falta de préstimo. Não sei bater em mulheres nem atirar em adolescentes. Não sei rezar para que gays, lésbicas, travestis e transexuais deixem de ser quem são nem tampouco negar meu respeito e amizade a uma pessoa por ela ser pobre ou negra. Sou um destes homenzinhos que se enfileiram em marchinhas que reclamam bestamente dos crimizinhos, das injustiçazinhas, das pequenas e quase imperceptíveis distorções sociais de nosso meio que, de tanto dizer-se igualitário, acredita ser. Mas nós, os completos inúteis, sabemos que isso não é verdade.

 

Queria destruir terreiros de candomblé, odiar aqueles que pensam diferente de mim, espancar o torcedor do time rival, lavar minha honra com sangue, desejar a implementação da pena de morte enquanto convoco as pessoas pelo whatsapp para que caminhemos pela vida, pela paz. Mas não dá. Não posso. Não sirvo pra isso.

 

Fernando era doido. Eu sou inútil. Com todo direito a sê-lo.

 

Emerson Braga

 

04/12/2015, sexta-feira

 

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O CU

O cu está no centro das questões que não podem ser ditas: de tudo aquilo que é proibido, mundano, profano, sujo, repulsivo e vergonhoso.

Bode expiatório de uma sociedade cujo ânus é imperfurado, o cu é sugerido como coisa não existente naqueles que são brancos, “bem nascidos” e abastados. A maior virtude dos tidos como belos e pertencentes às mais elevadas esferas é a fantasia popular de que eles não cagam nem peidam. Sempre limpos. Sempre discretos.  

Propriedade apenas das classes menos afortunadas; nem mesmo dentre os pobres e miseráveis ― que dele falam com mais frequência e sem maiores constrangimentos ― o cu encontra um meio onde possa florescer como uma ideia, um movimento, uma semente revolucionária.

Enquanto cuidarmos apenas de nosso próprio cu, nada faremos de positivo e engrandecedor pelas futuras gerações. Precisamos cuidar uns dos cus dos outros. E quando falo em cuidar de um cu que não seja o seu, me refiro a zelar pelo direito de expressão do outro, garantir-lhe o privilégio de fazer o que quiser de seu próprio cu.

Cuidar do cu do outro não é delegar funções ou limitações ao cu alheio, é assegurar-lhe liberdades.

De todas as negações impostas ao cu, considero aquela que proíbe o acesso ao prazer a mais violenta e cruel. Chamam-no de esgoto, enquanto órgão excretor. Como se a vagina e o pênis também não fossem canais por onde nosso líquido excrementício segregado nos rins é expelido. Como se, por vezes, nossa própria boca não se fizesse de tubo excretor daquilo que ingerimos e que nos faz mal. É uma injustiça direcionar ao cu toda a sujeira que apenas existe nas mentes e nas línguas de homens que, a qualquer custo, impõem a fraudulenta santidade de seus inconfessáveis infernos a toda uma sociedade.

Relegado a simples condição de parte integrante de nossa anatomia; o cu torna-se impotente diante das questões sociais que apenas poderiam ser apreciadas caso ele transcendesse a própria fisiologia e fosse integrado aos nossos códigos morais não como objeto de repúdio, mas na condição de célula revolucionária.

         As questões de gênero que nos são impostas dividem homens e mulheres (heterossexuais, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) em categorias que nos encerram como meras criaturas mecânicas, portadoras de acessórios eróticos diversos. Convencem-nos de que nossas diferenças anatômicas nos tornam incompatíveis. Apartados e envergonhados de nossos genitais, não nos sentimos preparados para o amor; e não há revolução sem amor.

         Alguns possuem pênis, outros vagina. Uns muito poucos têm os dois órgãos. Mas apenas o cu é parte integrante do corpo de todas as criaturas humanas. O cu nos une. O cu nos torna um só, tão coesos quanto uma palavra monossilábica.

Na trindade sexual, o cu é o único elemento erótico que faz parte dos jogos de ambos os sexos, sejam quais forem suas preferências e inclinações, confessas ou não. 



          Liberte seu cu e lute pela liberdade do cu de todos! Submetê-lo ao silêncio e tratá-lo como abstração é uma maneira de anular-se como pessoa diante da realidade das coisas. É preciso ter cu para não ter medo. É preciso ter cu para seguir em frente.

         Não podemos trilhar com leveza nossos caminhos enquanto nos dobrarmos sob a chibata de uma polícia anal que nos persegue sempre que cagamos, peidamos ou transamos. Somos prisioneiros de um meio social cujos valores estão voltados não para a satisfação de todos os indivíduos, mas para o gozo exclusivo daqueles que entopem nossos retos de acanhamento sexual e culpa cristã.  

         Enquanto fingirmos que não temos cu, continuaremos manipulados pelos mesmos cuzões que fazem merda e nos acusam de toda sujeira.

         Não permita mais que seus opressores lhes digam o que fazer de seu próprio cu, como se você estivesse bêbado e ele não lhe pertencesse. Cu de bêbado tem dono sim! E o de quem está sóbrio também!

Precisamos conquistar o direito de dar o nosso cu, se assim o quisermos; pois ele é uma das poucas coisas que realmente nos pertence. E também o direito de não dá-lo, se essa for nossa vontade. O que não podemos mais aceitar é que as pessoas se neguem a dá-lo porque lhes proibiram de fazê-lo.

A partir do momento em que aceitamos que alguém imponha controle de qualquer ordem ao nosso cu, nos sentimos inclinados a agir da mesma forma em relação ao cu dos outros. O que nos contamina de autoritarismo e hipocrisia, essas falhas de caráter embutidas em nossas mentes com o vil propósito de transformar iguais em inimigos.

O cu não pode mais ser tabu e nem assunto proibido. Não pode mais ser negligenciado, torturado por forçado celibato, ou violado por agressão moral ou sexual. O cu não pode pagar por ser o que é, pois ele é aquilo que é. E, neste aspecto, tem dado o melhor de si.  

          Os que têm cu, que me sigam!

          Já os que fingem não tê-lo ou dizem não sabê-lo:

          Vão tomar no cu!

 

Emerson Braga

23/10/2014

 

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CARTA A DEUS

 

Prezado Deus;

 

Se o senhor recebeu esta carta, então é porque você realmente existe e eu talvez esteja em maus lençóis. Sinceramente, espero que tenha perdido aquela sua mania de resolver tudo com chuva de enxofre, ira diluviana e genocídios, enfim, que tenha se tornado uma divindade menos impiedosa e opressora.

 

Sabe, Deus, eu não acredito no senhor. É, não acredito. E acho um saco que as pessoas digam o tempo inteiro que serei fulminado por um raio divino, demitido ou que contrairei uma doença terminal apenas por achar que você não está aí, manchando esta folha de ofício A4 com suas mãos sujas de barro.

 

Dizem que você nos deu o livre arbítrio, então não acreditar em sua existência deveria ser direito legítimo de qualquer ser humano, não é mesmo? Hum, mas as coisas não funcionam bem assim aqui embaixo, viu?

 

Aquele seu best seller  misógino, preconceituoso, segregacionista e confuso ―, que algumas pessoas usam para bater em outras, vem causando um transtorno dos diabos pros lados de cá da Criação. Você deveria lançar uma edição revisada e atualizada, não acha? Afinal, as coisas mudaram um pouco desde que inventaram os tipos móveis.

 

Muitos de seus representantes na Terra adoram dizer a medida exata de como toda e qualquer pessoa deve viver sua própria vida. Juram que queimaremos no inferno se não aceitarmos a salvação comercializada por suas igrejas. Meu deus! Além de eu não precisar ser salvo (pois não acredito no perigo metafísico embutido em nossas mentes desde a mais tenra infância), trata-se de um mercado tão vasto! Que salvação eu deveria comprar? Em que loja? Há tantas igrejas, templos, mesquitas, sinagogas, pagodes, centros espíritas, terreiros, santuários, mosteiros, conventos, basílicas... Quer saber? Não me leve a mal... Mas prefiro ir ao cinema ou ao teatro. Mesmo que seus seguidores mais sectários e fundamentalistas me critiquem e me persigam por eu não entrar pro seu fã-clube, prefiro fazer as coisas do meu jeito. Não sou da maioria. Não gosto desta conveniência de ser da maioria apenas para que não me censurem. E, quando a maioria está certa e esta certeza oprime de maneira irracional e violenta aqueles que não a aceitam, de nada vale ter razão.

 

E esse negócio de adoração? Porque ao invés do primeiro mandamento ser “Amar a Deus sobre todas as coisas”, você não mandou Moisés escrever “Pensar livremente sobre todas as coisas”? O pensamento é uma coisa boa, não crê? Não lhe parece contraditório condenar a vaidade como pecado capital e exigir essa adulação eterna? E masturbação? Qual a bronca com masturbação?! O senhor acha natural que as pessoas esfolem seus joelhos, prostradas em cega adoração, e não permite que elas tirem prazer do mesmo corpo que pode ser imolado em nome da fé que lhe dirigem? Ah, faça-me o favor... Ou você deixa as pessoas se masturbarem e transarem à vontade ou então substitua logo de vez nossos hormônios por gás freon! Ora!

 

Outra coisa que me irrita é essa história de promessa. Se paro de fumar, minha mãe diz que larguei o vício do tabaco porque ela alcançou a graça que pediu ao Senhor. Se passo em um concurso, arranjo um emprego novo ou recebo uma premiação importante, lá vem você outra vez levando o mérito em meu lugar! Poxa! Eu me esforço pra caralho, dou um duro dos infernos e não posso sequer ficar com os louros de minhas conquistas?! Você já criou tudo que existe! Parabéns! Ué? Não basta? Tenho mesmo que colocar no meu carro o adesivo cafona de “FOI DEUS QUEM ME DEU”? Não! Não vou! Eu que comprei. É meu. Se eu colocar algum adesivo, será com a inscrição “NINGUÉM ME DEU E O BANCO AINDA PODE TOMAR”. Ao menos, soaria honesto...

 

Também tem esse lance com os pronomes. Por que que, quando se referem ao senhor, eles devem ser grafados com inicial maiúscula?! Isto sem falar nas contrações extravagantes, tipo “d’Ele” ou “dEle”. Um horror! Não vejo problema nenhum em escrevermos “Deus” com “d” maiúsculo quando nos referimos ao senhor, o deus judaico-cristão. Afinal, seu verdadeiro nome não pode ser pronunciado em vão, estou certo? Então, tudo bem chamá-lo apenas Deus, assim como chamamos nossa lua apenas Lua. Mas, quanto aos pronomes pessoais iniciados por maiúsculas, aí é forçar demais...

 

Agora, sério. Cara, eu ando muito triste com você. É. Muito triste. Qual é a sua? Não permite que dois homens se amem, mas aceita que muitos se matem em guerras orquestradas em seu nome. Você reprova o aborto, mas enche a Câmara dos Deputados e o Senado Federal de homens fálicos que responsabilizam as próprias mulheres por serem vítimas de estupro. Ah, senhor! Quanta decepção. Se o senhor existe mesmo, ou é um irresponsável ou não está nem aí... Entre essas duas opções, prefiro a terceira, que é acreditar que você realmente é um delírio. Assim, me parece menos desconcertante.

 

Só mais uma coisa, Todo Poderoso. Mesmo que você seja real, posso seguir com minha vida como a vivi até agora? Posso? É que, pra mim, mesmo que você esteja aí, não fará muita diferença. Deus, não se sinta excluído, renegado. O problema é que eu realmente não preciso de você. E quando eu estiver doente? Irei ao hospital. E se os médicos me desenganarem? Morrerei, certo da inexistência que me aguarda. Se tenho medo de não haver nada após a morte? Não, não tenho medo. Na verdade, o que me apavora é a ideia de passar a eternidade saltitando feliz em um campo de golfe, entre leões e zebras que se afagam, enquanto cantamos e louvamos em um êxtase celestial sem fim. 

 

Olha, desculpe-me a franqueza. Por favor, não se chateie, não há necessidade de que nos tornemos inimigos. Não escrevi esta carta a fim de aborrecê-lo, mas para deixar as coisas claras entre nós. Você pode até, de vez em quando, passar lá por casa, por meio das orações de meus pais. Não tem problema. Eles não implicam com minha descrença e eu também não questiono a fé deles, pois, diferente de muitos, eles não usam sua espiritualidade para perseguir, castigar ou intimidar ninguém.

 

Para finalizar, posso aproveitar a ocasião e lhe fazer um pedido? Coisa simples. Caro Deus, pela hóstia consagrada, por tudo que há de mais virtuoso neste mundo, eu imploro: Peça a seu rebanho de missionários que pare de me atormentar a ressaca nas manhãs de domingo!

 

Descrentemente,

Um ateu

 

Emerson Braga

                                10/11/2015, terça-feira    

Comments: 2
  • #2

    Emerson Braga (Monday, 23 November 2015 14:41)

    Patético, Ágata, é não saber o que é licença poética. Se você tiver um, consulte seu professor de literatura.

  • #1

    Ágata Fernanda (Monday, 23 November 2015 10:38)

    Cara, tu é doido?????
    Quem escreve uma carta pra alguém que se acredita não existir?????
    kkkkkkkk.... Patético!


  

  

O CURTUME

 

Foi Nonatinho quem me trouxe o recado.

 

O dia estava muito quente e uma multidão de moscas atrapalhava-me enquanto eu debulhava o ralo feijão do almoço. Pela porta entreaberta que dava para o terreiro, sufocantes lufadas de vento esfolavam meu rosto, fazendo-me transpirar uma chuva de suor sobre a bacia em que eu cuidadosamente depositava os magros e pobres grãos. Aquelas eram nossas últimas vagens. As plantações haviam secado e rebanhos inteiros morrido. Feito um animal carniceiro, a morte nos rondava. Minha mãe havia sido levada pela tosse comprida e meu irmão pequeno sofria de uma moléstia que as rezadeiras não conseguiam sarar com suas miraculosas benzeduras. Passei a ignorá-lo ― meu irmão pequeno ― não por temer contrair sua terrível doença, mas porque ele trazia agouros para dentro de nossa casa. Seus gemidos, o ranger dos dentes, o revirar dos olhos, tudo servia de convite para que a morte adentrasse nosso casebre, devorasse nossa carne e nos roesse os ossos. Meu irmão pequeno não merecia aquilo. Acho que quase ninguém merece.

 

Meu pai havia partido para Morada Nova a fim de vender algumas peças de couro que ele mesmo confeccionara. Jurou antes de seguir viagem que me traria algum mimo de presente, caso houvesse fartura de ganho em suas vendas. Em casa restaram apenas meu irmão pequeno, meu outro irmão, um primo que fora criado conosco e eu. Estes dois já eram taludos e passavam a manhã inteira roçando o chão do qual nada brotava. Nenhum de nós trazia no rosto juventude e muito menos frescas esperanças que nos atinassem dias melhores. Estávamos tão secos quanto a terra e silenciosos como o enterro da última das carpideiras.

 

Receber o recado de que Liduíno me esperava no curtume fez com que eu largasse meus afazeres e vestisse uma roupinha mais faceira. Calcei minhas sandálias de ir à missa, pus uma fita dourada em meus cabelos e mirei-me no espelho. Papai me mata se souber que já beijei na boca, pensei, satisfeita de minha ousadia.

 

Atravessei a cerca dos fundos de nossa casa e me dirigi às pressas ao curtume de meu pai. Meu coração parecia prender uma graúna afoita por bater asas sobre a caatinga e o calor do dia intensificava ainda mais o desejo de encontrar meu namorado secreto. Dentre meus peitos tão moços, escorria o mesmo suor que umedecia minhas coxas e me fazia pensar em coisas proibidas, mas que não passavam de doidices de minha cabeça. Afinal, a instrução era clara: Eu deveria casar pura e jamais me dar ao desfrute, mesmo se tivesse plena certeza das boas intenções do rapaz.

 

Antes de adentrar o curtume, pensei em meu irmão pequeno e empaquei diante da soleira. Não era direito deixá-lo sozinho em casa, talvez ele sentisse uma coisa ruim e morresse sem nenhum vivente a seu lado. Mas saber que o bem-bom me esperava do outro lado da porta fez com que eu desistisse de retornar a casa. Sem remorso, entrei no curtume e chamei por Liduíno. Não houve resposta. Andei pelo meio das peças inacabadas, dependuradas como roupa em varal, e imaginei que meu namorado brincava comigo. A ansiedade me causou risos e um frio na espinha, era uma sensação gostosa aquela.

 

Tomei um susto terrível quando fui agarrada com bruteza pelas costas. Logo reconheci a voz de meu primo quando me disse: Calada, Rosa. Do meio dos couros, com os olhos de um cachorro adoecido pelo mal da raiva, surgiu meu outro irmão. Sua mão grosseira segurou com força meu pescoço enquanto ele me aplicava o incestuoso beijo. Ainda pude sentir o bafo de cachaça antes de ser jogada ao chão. Resolvi não gritar, fiquei quieta e fechei meus olhos, enquanto meu primo e meu outro irmão me faziam mal.

 

Durante meu pecaminoso desfloramento, escutei um barulhinho gostoso batendo nas telhas do curtume e senti uma leve umidade atravessando o telhado banguela. Chovia. De dentro do curtume, pude escutar o som das tinas e dos potes enchendo d’água sob as biqueiras. Ouvi o cacarejar de galinhas gordas e alegres em meu quintal, cabras formosas berravam felizes enquanto pastavam o capim farto e verde do chão fertilizado pelo milagre da chuva. Meu pai havia chegado de viagem com muita farinha, sacas de fubá, carne do sol e a blandície que me prometera. Mamãe estava linda vestida de azul e branco, preparando o fogo com zelo, irritada com o gotejamento que não deixava a madeira do fogão a lenha embrasar. Os açudes transbordavam e crianças nuas brincavam nas poças de lama, meu irmão pequeno estava com elas, tão gordinho. Havia acontecido algo santo, Deus finalmente enviara a bênção que o padre nos prometera. Estávamos salvos.

 

Permaneci durante horas deitada no chão quente do curtume. Lamentei a mancha encarnada em meu melhor vestido e lembrei-me de meu irmão pequeno. A culpa foi do sol, pensei, este calor amaluquece as pessoas. Levantei-me com cuidado ― o que não me protegeu da forte pontada que senti no pé da barriga ― suspirei sem forças e procurei esquecer Liduíno. Homem direito não se casa com mulher estragada.

 

Odeio Nonatinho. Não era meu irmão pequeno quem merecia morrer.

 

 

Emerson Braga

 

28 de setembro de 2015, segunda-feira

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O SALTO

 

Minha tia morreu.

Eu não gostaria de ter começado esse texto assim, talvez um eufemismo, uma metáfora mais suave, não sei. Eu não gostaria de ter começado esse texto assim, mas não há outra maneira de iniciá-lo. Preciso ter coragem para enfrentar tua morte, tia Xixica, assim como tiveste coragem de enfrentar a vida, com tanta dignidade e bravura. Assim como um dia eu saltei do trampolim para a piscina... Mas, como são rasas essas águas amargas de agora.

Quanto a ti, Morte, não irei chamar-te partida, viagem, descanso, último suspiro ou por qualquer uma destas expressões que tentam descaracterizar-te de teu sentido primordial, de tua essência, de tua razão de ser. Irei chamar-te apenas Morte porque morte é aquilo que tu és desde que vim ao mundo, desde que percebi, ainda criança, que tiveste o privilégio de levar para junto de ti aqueles que amei em minha vida. Tens em tua companhia meus avós, alguns tios e tias, amigos, pessoas que amei, que ainda amo, joias raras, de corações agigantados.

Na madrugada de hoje, invejosa do amor que nós todos sentíamos por ela, levaste embora minha tia Xixica. Mas sei por que fizeste isso. Não foi a fim de ferir aqueles que a amavam, mas para trazer um pouco de luz e graça para esta tua vida, Morte, sempre tão cercada de lágrimas e despedidas dolorosas. Levaste pelas mãos uma mulher que deu vida, que alegrou a vida, que se agarrou a vida, apesar da dor, até que a vida tivesse piedade e a entregasse aos teus certeiros cuidados.

Minha tia morreu.

Mas sua morte será uma maneira de nos mantermos vivos, por meio de seus causos, suas cantigas, seu riso, sua força.

Deveria ser mais fácil. Dizem que eu tive tempo de me preparar, que a morte seria inevitável. Mas não, não, não! Inevitável é essa sensação dolorosa de que ainda era cedo, que ainda tínhamos mais a dizer, que poderíamos ter comido aquela peixada de camurupim que te prometi quando tu recebesses alta, tia Xixica. Mas, logo, logo, o comeremos, todos em família, reunidos em tua homenagem, em celebração a herança que nos deixaste: coragem e vontade de viver.

Obrigado por cada gesto de afeição e por ter participado de meus dias até a madrugada de hoje. Sim, estou chorando, eu sei. Mas não te preocupes, ficarei bem, isso passa. Mas não hoje, talvez amanhã, quem sabe. Não te preocupes.

Não acredito em enterros. Não acredito em crematórios. Tu não serás jamais guardada em um abraço eterno pela terra e muito menos ter tua memória transformada em cinzas. Na verdade, te transformaste na determinação que nos impulsionará a seguir com nossas vidas, orgulhosos de termos aproveitado por tanto e por tão pouco tempo a tua luminosa companhia. E aqui, dentro de nossos corações, tua lembrança permanecerá, como uma voz que diz:

Não pare, não tenha medo. Salte!

 

Emerson Braga

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CONDOMÍNIO BRASIL

 

A rebelde Juventude, filha de Dona Indiferença e de Seu Descaso, olhou na cara de Dona Democracia e gritou:

 

― A senhora é uma preguiçosa! Uma falsa!

 

Dr. Conservadorismo ― com a desculpa de que defendia a esposa que estuprava à luz do dia ― convenceu os condôminos de que Juventude é uma drogada, uma viciada  e uma menina perigosa. Trancou a garota em um quarto escuro e jogou a chave fora.

 

Os moradores do Condomínio Brasil não reclamaram. Acham Juventude barulhenta e irritante, uma perdida que reclama de tudo e que quer demais.

 

Todos sabem que, de vez em quando, Dr. Conservadorismo desce ao porão e abusa um pouco mais de Juventude. Tem inveja dela, quer vê-la morta. Mas ninguém diz nada, acreditam que os desmandos perpetrados por Dr. Conservadorismo podem ser anistiados porque os faz em nome do bom funcionamento do Condomínio Brasil.

 

Dona Democracia assiste a tudo impassível, não quer se meter em encrenca. Filha caçula de Sinhá Ditadura, Dona Democracia aprendeu com a mãe a fazer de conta que tudo está bem, mesmo quando crianças e adolescentes encontram-se em situação de risco.

 

Dr. Conservadorismo é um homem de família, que não suporta ser contrariado. Síndico rigoroso e homem temente a Deus, gosta das coisas certas. Mas suas regras não servem para seu filho Fascismo e sua enteada Demagogia. Ambos fazem o que querem: mentem, roubam, matam e extorquem; enfim, enchem o pai de orgulho.

 

Dona Democracia às vezes pergunta:

 

― Meus filhos! Por que vocês fazem isso?!

 

E os dois respondem em coro:

 

― É para o seu bem, mamãe. É para seu bem.

 

Trancada em sua injusta prisão, Juventude conjura:

 

― Quando eu sair daqui, prostituída e selvagem, mudarei meu nome. Todos me conhecerão por Sequela...

 

10/07/2015, sexta-feira

Emerson Braga

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DOIS

 

Eu

Tu

Eu e Tu

AUSÊNCIA

Tua mão procura, encontra e toca a minha

CONTATO

A minha mão aceita sem restrições o toque da tua

ENCONTRO

Teu dedo apontador sobre o meu anular

PROIBIÇÃO

Tua mão descansa enternecida sobre a minha

INÍCIO

Tua palma corre arteira sobre meu braço

Segue tranquila até meu ombro

Onde é feita uma leve pressão

Giro minha cabeça e encontro teus olhos

Mergulhados em uma névoa de frágil robusteza

E teus grossos lábios entreabertos

Estendo meu braço e toco tua perna

Sinto teus pelos eriçarem

Relva embalada por impaciente brisa

Teus coração bate inquieto

E percebo teu amor quase explodir

Por detrás da pele de teu peito

Minha mente abre diante da loucura

E reconhece a agressividade sutil

Que teu semblante, aparentemente pacato, encobre

Respiras ofegante e levas tua mão à minha nuca

Meus cabelos deslizam por entre teus dedos

Revelados são os grãos de areia

Que ficam inevitavelmente presos às tuas unhas

Deslizo o corpo um pouco mais para frente

E levo minha outra mão até teu rosto

Enrubescido e delator

Por um segundo,

Tu vacilas e observas, com um rápido movimento dos olhos,

Minha mão sobre tua coxa

Ergo minha cabeça e encosto tua testa em meu queixo

Sinto a tua visão percorrer meu pescoço

Por toda a sua musculatura e extensão

Lentamente, deslocas tua boca na direção de meu maxilar

E beija-me a cicatriz que julgas ser tua

Envolvo-te em meus braços

E pressiono teu peito contra o meu

Suspiramos quase sem fôlego

Com tuas duas mãos, conduzes minha fronte para trás

E, com tremenda leveza,

Umedeces com a ponta de tua língua meu pomo-de-adão

Sinto que me quebrarei antes do gozo

Enquanto estremeço ao sentir tuas mãos

Pousarem em minhas costas feito em segura planície

Nos abraçamos e só então experimentamos nossos sexos tocarem-se

Embebidos de destilados líquidos corpóreos

A tua boca invade a minha e a minha pede licença ao entrar na tua

A tua saliva com gosto de vinho

E a minha ainda com o sabor caseiro do pão

As mãos descontrolam-se:

Sobem, descem, entram, saem

Dançam em uma valsa repleta de ternura

Desobedecem

O teu corpo peca no meu

E o meu macula o teu

O teu sangue ferve ao calor de mil silêncios

E o meu ainda congelado por teu hálito ensurdecedor

Nossas almas unidas, partidas

Por singela e afetada necessidade mútua

O gozo emerge do suco gástrico

Flui na ponta de nossos dedos

Evapora, fumaça de agradável cansaço

Manto de dormência sobre nossos genitais

Meus lábios nos teus lábios

Depois, tua cabeça em meu colo

Tu

Eu

Tu e eu

DOIS

 

 

Emerson Braga

29/06/2015, segunda-feira

 

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Imagem: Fotograma do documentário, de 1919, Leilão de Almas, que retratou eventos testemunhados do genocídio armênio, incluindo meninas cristãs crucificadas.

 

GÓLGOTA DAS RODADAS

 

No dia 27 de maio, quatro adolescentes foram amarradas, agredidas e violentadas sexualmente na cidade de Castelo do Piauí, distante 190 quilômetros da capital, Teresina (PI). Uma delas, a jovem Danielly Rodrigues Feitosa, não resistiu aos ferimentos e faleceu no último domingo, 07 de junho.

 

As garotas foram estupradas em sistema de rodízio por quatro menores e um adulto, Adão José de Sousa, de 40 anos. Segundo a polícia, após a agressão, as vítimas foram arremessadas da ribanceira de um lugar conhecido como Morro do Garrote. As meninas estudavam juntas e haviam ido até o local para fotografar.

 

Além da tristeza que esta notícia me causa, também me sinto invadido por um grande temor: Quatro garotas foram brutalmente violentadas e uma delas veio a óbito justamente em um momento em que discutimos a diminuição da maioridade penal em nosso país.

 

O impacto que esta tragédia causa em toda a sociedade deveria servir para fomentar um debate mais profundo, sobre a situação de risco em que vivem constantemente submetidas as mulheres brasileiras, como também aqueles indivíduos que se identificam com o gênero feminino, como é o caso das travestis e transexuais.

 

A fim de que a morte de Danielly não seja em vão, deveríamos discutir publicamente as políticas que expõem a minoria em questão à exploração sexual, agressão física, baixa remuneração de sua força de trabalho, enfim, a uma diversidade imoral de injustiças sociais.

 

Infelizmente, o mais provável que aconteça é que a bancada da bala se aproprie desta triste história para justificar a diminuição da maioridade penal. Os meios de comunicação exploram exaustivamente a história e apontam em uma única direção: “É preciso punir exemplarmente aqueles malditos garotos!”.

 

Claro! Também sou a favor de que os menores sejam punidos! Mas para isto não é necessário a implementação da PEC 171/93. Os adolescentes responderão por atos infracionais e serão julgados, a partir da data do crime (27 de maio), em até 45 dias. Um juiz da infância e da juventude deve ficar responsável pela sentença. Está mal informado quem acha que menor infrator não é punido no Brasil, e mais desinformado ainda quem pensa que os centros correcionais para adolescentes são verdadeiros “playgrounds”.

 

Segundo levantamento feito por órgãos que administram internação de menores, a redução da maioridade acarretaria ao sistema prisional um acréscimo de 32 mil presos em apenas 1 ano.

 

A quem realmente interessa aumentar nossa comunidade carcerária? Muitos deputados têm financiamento de gestores de penitenciárias privadas e de empresas de segurança pública e, por isso, são a favor da PEC. Não votarão pelo bem-estar da sociedade, mas pelo próprio enriquecimento, afiançado pelo terrorismo midiático que compra e vende assassinatos, sem considerar as razões sociais que levam à insegurança da qual nos encontramos reféns.

 

Não é preciso ser nenhum cientista político para entender que a construção de mais presídios reflete um atraso e não um avanço. Segurança se constrói com políticas públicas eficientes, que envolvem educação, inclusão social e equilibrada distribuição de renda.

 

As meninas que foram rodadas em uma ciranda de monstruosidade não precisam de vingança. Elas precisam de respeito, de dignidade. Enquanto mulheres continuarem sendo rotuladas como cidadãs de segunda classe, infelizmente, os estupros e assassinatos continuarão a ocorrer, por mais que se abarrotem as casas de detenção com menores os homens feitos.

 

Saíram de casa para fotografar e acabaram registradas no retrato da própria tragédia. Depende de nós agora decidir o que fazer diante deste horrendo quadro.

 

Emerson Braga

 

09/06/2015, terça-feira

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LADIES AND GENTLEMEN! 

 

 

Ontem, presenteei-me com a estreia do espetáculo de conclusão de curso/disciplina de montagem teatral TCC I do IFCE, Turma 2011.2, Licenciatura em Teatro.

 

 

A limitação quanto ao número de pessoas que poderia compor a plateia já nos dava pistas de que os formandos haviam optado por um debutar pouco convencional.

 

Curiosos, adentramos o Teatro Boca Rica, na altura do nº 260 da Rua Dragão do Mar, em Fortaleza-CE e, imediatamente, sentimos a estranheza que adensava o ar e anunciava a proximidade de uma irascível tormenta.

 

 

Como o ambiente nos deixou pouco à vontade, restou-nos aguardar pelo início do visceral espetáculo CASAMATA, com direção de Luís Carlos Shinoda e texto escrito a partir das obras de Mário Bortolotto.

 

 

Desprovida do verniz social que tantas vezes nos transforma em autômatos despidos de vontade, a peça nos atira bruscamente em um universo de crueza das palavras e dos sentidos. A falta de eufemismos e polidez, a violência dos gestos, luzes e sons que vêm e vão, nos atordoam ao ponto de sentirmos que não somos meros espectadores, mas parte integrante de um experimento social.

 

O desconforto é inevitável.

 

 

A proximidade com a nudez da verdade (que apenas existe na mais completa miséria) possibilita a catarse que nos leva a um perturbador questionamento acerca de nós mesmos, do outro e do mundo que nos cerca e, que tantas vezes, também nos sufoca.  

 

Junto ao elenco ─ que magistralmente dá identidade e corpo ao texto ─ descemos pelo cano de esgoto e rastejamos em nossa própria sujeira, aquela mesma sujeira que cinicamente apagamos de selfies desmaiados, editados para retratar apenas nossa superfície irreal. E, após vertiginosa queda, bem lá no fundo, onde mais dói, estranhamente encontramos toda a poesia, toda a beleza, toda a força do espetáculo.

 

 

As casamatas estão por aí, ao nosso redor e dentro de cada um. Pessoas ilhadas, sonâmbulas, dormentes, adoecidas pela ausência de esperança que corrói feito um câncer nosso desejo de utopia.

 

 

Por mais que não queiramos, por mais que gritemos em silêncio durante a montagem "Eu não sou assim!"; é impossível não se identificar com as personagens que passeiam pelo palco como estranhos espelhos, nos quais não nos enxergamos, mas nos reconhecemos.

 

 

Assistir à coroação de um projeto teatral iniciado ainda em 2011 ─ desde o começo da formação daqueles que ontem espalharam merda no palco do Boca Rica até a inevitável ovação que marcou o final do espetáculo ─ tem um sabor especial. Tem gosto de dor de cabeça, sangue, luta, esforço, choro; pois fazer arte em nossos estado é coisa para quem tem raça, determinação e, acima de tudo, vocação, pois só o amor nos anima a nadar contra a caudalosa correnteza de ignorância e entretenimento vazio que inunda nosso país.

 

 

Apenas quando as luzes se apagaram e os aplausos emergiram de nossa satisfação, os artistas envolvidos no projeto puderam experimentar outro sabor: o da realização. E este, meus queridos, não é para qualquer paladar. Nem todo ser humano é capaz de senti-lo. Para tanto, há de ter graça. E alma.

 

Emerson Braga

 

07/06/2015, domingo

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EM DEFESA DO CIUMINHO DE ELISA

 

         Quando criança, eu também sonhei que um dia eu iria para um país mágico, onde tudo é faz-de-conta. Cresci, hoje tenho 38 anos de idade, e descubro que meu sonho pueril finalmente se realizou!

 

         O Brasil virou o país do faz-de-conta! Nós fazemos de conta que não há homofobia, que mulheres não são agredidas por seus companheiros misóginos, que crianças não são espancadas por seus pais, que os pobres não são tratados como estorvo pelo estado e como criminosos pela polícia. Fazemos de conta que somos bons cristãos, enquanto desejamos a morte de viciados e de mulheres que abortam. Fazemos de conta que somos tolerantes, enquanto criamos grupos no whatsapp para falar mal de quem não se encaixa em nosso mundinho redondo, fofo, sem arestas.

 

         Talvez o maior de todos os faz-de-conta diga respeito à nossa sexualidade. Gostamos de fazer de conta que o brasileiro é o povo mais sensual do mundo, celebramos nossa industrializada sexualidade em músicas, literatura e cinema que vendemos pra gringo ver e se masturbar. Rebolamos, descemos até o chão, gememos... Tudo como exige o mercado. Padrão Fifa de sacanagem!

 

         Mas isso também é só faz-de-conta. O brasileiro é um careta sexual que tenta vestir a burca em tudo e em todos. É tão careta, mas tão careta, que não consegue sequer ler sem corar uns versinhos atrevidos, que brincam com os apelidos de nossos genitais.

 

         Está duvidando?! Pois a vice-diretora de uma escola municipal em Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte, pode ser demitida por ter dado, no dia 28 do ultimo mês, um poema de cunho erótico para os alunos da 5ª série.

 

O caso aconteceu na Escola Municipal Jaime Avelar de Lima. Com a ausência da professora em sala de aula, a vice imprimiu o poema "Ciuminho Básico", da autora Ana Elisa Ribeiro, e distribuiu aos alunos.

 

Pronto! Foi o suficiente para que os pais dos alunos deixassem de segurar o “Tchan” e solicitassem a cabeça da vice-diretora em uma bandeja de prata.

 

Vocês lembram-se da 5ª série? Das coisas picantes que conversavam no intervalo das aulas? Fofocas divertidíssimas sobre xoxotas e cacetes, em rodinhas onde praticávamos com nossos amigos e amigas o jogo da transgressão, e assim crescíamos e nos tornávamos conscientes de nossos corpos, a revelia de nossos pais, que nos queriam eternamente assexuados. Para eles, bastaria que desempenhássemos pré-determinados papéis de gênero e que permanecêssemos na ignorância de nós mesmos a fim de que não parecêssemos desajustados sociais: bichas, sapatas, vadias, tarados.

 

Começamos a falar palavrões ainda cedo e nem por isso crescemos ninfomaníacos. O palavrão não é nenhuma desgraça, faz parte de todas as línguas faladas no globo. Creio, inclusive, que em algumas comunidades tribais, o palavrão seja um som sagrado. Afinal, que palavra certinha seria capaz de aplacar a dor que sentimos quando arrancamos um chaboque do dedão do pé?! Apenas o palavrão tem características curadoras. É subversivo e, talvez por isso, libertário, gostoso de ser dito.

 

Seu caráter apenas torna-se danoso quando o utilizamos para punir, humilhar, denegrir e infamar alguém. Aí ele perde seu sentido primeiro, que é o da graça. Excluídos de muitos dicionários, os palavrões seguem lépidos animando desde brincadeiras no jardim de infância a divertidas conversas de barzinho.  

 

Quem pensa que os próprios filhos não falam palavrões, não passa de um ingênuo ou de um cínico. O caráter proibitivo já é o primeiro doce e irresistível impulso. Fazer algo que pode acarretar punição nos dá o sentimento de poder sobre nós mesmos, o que é importante para o desenvolvimento cognitivo. E o fato de suas crianças não falarem calões na sua frente, não significa que elas não os digam.

 

Então, por que não levar palavrão para a sala de aula? Retirar dele seu caráter marginal e discuti-lo sem preconceitos, sem histéricas posturas moralistas? Os versos de “Ciuminho Básico” são deliciosos! Não machucam a integridade de ninguém e ainda trazem o “obsceno” para uma contextualização lírica, inteligente.

 

O polêmico poema (E que os poemas, assim como os mamilos, sejam sempre polêmicos!) de Ana Elisa Ribeiro poderia, inclusive, ser discutido em aulas de português, filosofia, biologia... Enfim, há tanta riqueza nestes versos, tanta franqueza, e tudo que enxergaram foi sujeira e depravação. Chega a ser criminoso chamar aqueles versinhos de indecência. “Indecente é você ter que ficar despido de cultura”, como já dizia a canção.

 

Enfim, leiam “Ciuminho Básico” e tirem suas próprias conclusões. E, se não conseguirem lê-lo com seus filhos pré-adolescentes e discutir sobre o conteúdo de cada versinho, então jamais falarão sobre sexo com eles.  

 

Hipocrisia emburrece. De ignorância básica, não devemos ter ciúmes.

 

Emerson Braga

07/05/2015, quinta-feira

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REDES SOCIAIS: O PARAÍSO DO SENSO COMUM

 

Todos os dias, o tempo inteiro, reverbera na internet um clamor que exige justiça em todas as esferas. Seja no âmbito político ou econômico, em questões que versem sobre segurança e corrupção, enfim, todos parecem ter se transformado em bastiões da ética, da moral e da lisura. Mas, que tipo de justiça realmente vem sendo exigida nas redes sociais?

 

Para os grandes políticos, empresários, empreiteiros, magnatas e lobistas ― maiores defraudadores e grandes responsáveis pelo sucateamento de toda a máquina pública ― as pessoas clamam por julgamentos e condenações que tramitem no âmbito da lei. Muitas vezes, sequer sabem o nome de ao menos um dos envolvidos nos muitos escândalos financeiros explorados pela grande mídia. Apenas se unem ao coro insano, vestidos de verde-e-amarelo e cantando o hino nacional, enquanto aberrações (como o saudosista apego ao regime militar) viajam na boleia desta cruzada nacionalista estúpida e repleta de lugares sombrios.

 

Já a outra justiça, aquela invocada para punir criminosos comuns, essa exige a precariedade de direitos arduamente conquistados para que se faça valer. Todos querem o achaque público, a humilhação, os pontapés, pauladas, linchamentos e imolações. O Código de Hamurabi ― lei de direito primitivo, que há pouco tempo era vista por nossa contemporaneidade como uma prática legal bárbara ― agora nos parece uma resposta lógica para o incômodo causado por entes anônimos, fantasmas sociais, cuja carreira no universo do crime começa muito cedo: Assim que nascem.

 

 Para o pobre favelado, não há julgamentos, mas condenações e execuções sumárias. Antes, os desfavorecidos eram atacados apenas pela truculência do braço armado do estado, representado com sádica competência por nossa polícia militar. Porém, hoje, a classe média (aquela classe média que vê na "meritocracia" o único parâmetro para justificar a ascensão social, como se o Estado proporcionasse igualdade de condições a todos) ― tomada de uma sanha de cachorro raivoso que apenas late para pequenos arbustos e não para sumaúmas ― tornou-se conivente com a aplicação de penas comunitárias, cessação dos direitos sociais já conquistados e toda a sorte de retrocessos da pior espécie. Estão satisfeitos com a possibilidade delirante de um novo estado totalitário, que garanta a manutenção de suas taras religiosas e moralidades obtusas. São pessoas que soltam alvas pombas e salvam do aborto fetos incapazes de sentir dor, ao passo que condenam ao pior dos destinos aqueles que já nasceram estigmatizados pela própria condição.

 

Mas o vigilante da moral se defenderá, dizendo: “A lei tem que ser a mesma para todos! Não pode haver leis que privilegiem negros, homossexuais e outras minorias!”. Não é um privilégio ser reconhecido e tratado como os demais. É um direito.

 

Uma legislação que trate todos da mesma forma talvez funcione em uma sociedade igualitária, o que não é o nosso caso. No Brasil, as leis apenas atendem (quando atendem) aquilo que é pleiteado pela maioria (entenda-se por maioria aqueles grupos seletos que têm maior quantidade de direitos adquiridos). Já as minorias (grupos que não se beneficiam ou se beneficiam precariamente das leis que protegem os interesses da maioria) vivem em estado de polícia, tendo suas cidadanias violadas e mitigadas constantemente, o que faz com que seus direitos sejam regidos por discriminação e não pelo princípio da igualdade.

 

É ridículo falar em traficantes apenas olhando para as favelas, quando eles também estão nas alphavilles e condomínios de luxo. Há assassinos tanto nas periferias quanto nos bairros nobres. Roubo, corrupção, crimes hediondos, sadismo e vilania são praticados por sujeitos diversos em todas as classes sociais. Então, por que apenas os menos afortunados, geralmente de cor negra, lotam as cadeias? Enquanto os brancos e “bem-nascidos” que também praticam os mesmos delitos merecem gozar, em liberdade, de uma segunda chance?

 

Como exigir, por exemplo, diminuição da maioridade penal em um país que, sabidamente, dará diferentes destinos aos jovens infratores? Para uns poucos: A clínica de reabilitação. Para todo o restante: cadeia, tortura e esquecimento.

 

Se um jovem de posição social privilegiada mata um mendigo a pauladas, a opinião pública clama por justiça, mas discretamente, sentada em seu sofá enquanto formula (pré)conceitos diante da tevê. De repente, surgem discussões sobre o risco das drogas, o vazio existencial dos adolescentes, a necessidade de um tratamento que o resgate da violência e devolva-o ao seio da família que o ama.

 

Todavia, suponhamos que este mesmo mendigo tenha despertado após o primeiro golpe e, por puro instinto de sobrevivência e legítima defesa, levado à morte seu jovem agressor. Que destino teria ele? Que manchetes seriam noticiadas? E que julgamentos de valor seriam feitos? No modelo social que nos é imposto, o menino branco e de “boa criação” nunca será um suspeito. Para ele, sempre, sempre e sempre, haverá o benefício da dúvida. Buscaremos o delito em seus olhos e apenas enxergaremos a vítima, criatura angelical, ferida ao sair da proteção da bolha que o apartava e protegia de todos os males do mundo.

 

A justiça, assim, torna-se cega de apenas um olho. Este ignora a existência de delitos praticados pelos que tem poder de compra. Já a outra vista, a que enxerga (mas é preconceituosa e inquisidora), detém-se como um deus vingativo sobre os que vivem de sobejos. Os boçais defensores deste tipo de justiça escutam o galo cantar e, mesmo sem saber aonde, correm para seus notebookssmartphones e PC’s a fim de disseminar sua raiva medieval. Transformam as redes sociais em púlpitos de onde vomitam suas reivindicações pautadas por ignorância, desinformação e sentimentos de vingança. Idiossincrasias viciosas tornam-se a única base para justificar julgamentos que se flexibilizam de acordo com a pele e a condição social dos supostos malfeitores.

 

Chamam, com os dentes trincados, de “bestas politicamente corretas” àqueles que defendem os direitos humanos. Hoje, quem não aplaude o linchamento de um assassino é acusado de compactuar com o crime por ele praticado. Ignora-se que, ao pagarmos na mesma moeda, ao revidarmos nosso sofrimento com sadismo, perpetuamos um ciclo de violência que nos arrastará de volta aos velhos tribunais da inquisição, nos quais livres pensadores eram tratados como criminosos passíveis de pena capital.

 

O senso comum masturba-se satisfeito dos impostos que paga religiosamente, regozija-se das missas que frequenta para a consagração de seus egoísmos, compraz-se dos filhos e filhas que educa para serem homens adúlteros e esposas servis.

 

Para o senso comum, conquistas sociais históricas nada significam. Vale apenas a manutenção desta ordem feita para sustentar o fantasioso estado de graça de uns poucos; em detrimento de múltiplas e diversas realidades excluídas, que nada sabem da paz, da bonança, da segurança ou do luxo que tanto ameaçam com suas caras de fome. Todos fedidos. Todos feios. Do outro lado dos muros e das leis que protegem os ditos “cidadãos de bem”, há um país inteiro no exílio.

 

Para o senso comum que vigora nas redes sociais, nos fóruns de discussão e nas salas de bate-papo, a dignidade humana de nada vale. O que importa é a sustentação da crença equivocada de que ele (o senso comum) está lutando por um país melhor. Melhor para quem? E aqueles que não se enquadrarem neste sonho ufanista? O que lhes será destinado? As “benesses” de sempre? As calçadas invisíveis? As páginas policiais? As celas superlotadas de nossas cadeias? Os livros de História, que encherão de vergonha e horror as futuras gerações?

 

O senso comum não quer diálogo. Pois diálogos são baseados em argumentos, cobram de cada uma das partes, em igual proporção, disposição para ouvir, sensatez ao falar e ponderação ao tirar conclusões.

 

De modo leviano, o senso comum resiste a uma visão mais holística e menos intolerante sobre os fatos, as pessoas e as coisas.

 

Cansei de ouvir: “Está com pena do bandidinho? Leva ele pra tua casa”.

 

Não se trata de piedade. É uma questão de justiça social.

 

Pena, pena mesmo, pena de verdade, eu tenho de quem posta em sua página no facebook ― junto de fotos de família, cãezinhos fofos e mensagens de autoajuda ― a seguinte máxima: “bandido bom, é bandido morto”.

 

E a morte de todos os bandidos, de todos os que não andam na linha, de todos os indesejáveis, de todos que se revoltam contra a própria miséria? Afinal, a morte de todos eles transformaria seus executores e os que são convenientes com seu extermínio em quê?

 

Deus, eu que em ti não creio, peço-te: Livra-me da salvação imposta por teus santos justiceiros.

 

Emerson Braga

 

 22/04/2015, quarta-feira

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MATERNA

 

Minha mãe é uma jovem senhora excêntrica, uma Sahrazad alencarina, com sete véus nordestinos de chita a ornamentar-lhe o ano inteiro o rosto iluminado pelo sol ― este pobre coitado certa vez por ela vaiado por ter demorado a nascer. Enganaria ela até o mais perspicaz dos sultões com seus mil causos de corta-bundas, pernas-cabeludas e loiras-do-banheiro.

 

Minha mãe não tem muitas posses, mas teima em banhar suas costas com águas de esmeralda, mesmo quando faminta, mesmo quando abandonada. É uma mulher de coração agigantado que acolhe boêmios, loucos e poetas. Diverte-se com eles quando, ébrios, repetem seu doce nome em poesias, declarações de amor e cantigas. Minha mãe não tem pudores afetivos e entrega-se embevecida ao amor de tantos homens e mulheres, delicada amante de todos. Com os mesmos peca e junto a eles reza. Santa ou meretriz? Não sei. Sei apenas o quanto ela é materna.

 

            Peço desculpas pelas incontáveis vezes que cheguei a odiá-la por não compreendê-la em suas contradições, por não perdoá-la quando nela identifico certa preguiça ou quando me encontro perdido dentre seus excessos. Acontece que me preocupo com ela. Sempre tão linda e festiva, acaba por esquecer-se de si mesma e, distraída, me deixa a cultura, a panela e a esperança em uma profunda miséria avessa a seus naturais encantos. Minha mãe não sabe o quanto eu sofro por ela, o quanto quero seu bem e que me permito amá-la todas as horas de meu dia porque a amo no embalo da rede, sem pressa.

 

            Minha mãe amanhece acordada, não dorme nunca, pernoita a vigiar seus filhos. Muitas vezes chora às escondidas, por perdê-los para os vícios do mundo, que corrompem seus caçulas atirados nas calçadas como coisas meramente usadas. Tenho uma bela mãe que está envelhecendo precocemente, não pelo efeito do tempo, mas por ser mãe solteira. E os homens e mulheres que por sua vida passam com promessas vazias de ajudá-la a gerir seu futuro, apenas exploram-na, prostituem-na, sem tratá-la com o devido respeito, sem presenteá-la com livros e mesas fartas. Estojos de maquilagem ela não quer mais.

 

Reflito constantemente acerca desta colossal mulher, sobre sua capacidade de continuar a sorrir, apesar de todas as adversidades que insistem em vilipendiá-la. Logo minha mãe, que apenas faz por onde ser tratada com esmero e zelo, esta mulher que recebe em sua própria casa com redobrados cuidados os filhos de suas comadres, muitas delas umas velhas mexeriqueiras que injustamente a xingam de atrasada, matuta e desleixada.

 

            Sou filho de uma mãe tão bonita quanto Iracema. Sou herdeiro de uma mulher-macho com olhos voltados para o mar. Minha mãe é jangadeira, catadora, repentista e rendeira. Uma mulher frágil, mas resistente às agruras da vida, pois, de tanto amor por seus filhos, transcendeu ela a própria figura materna: Tornou-se Fortaleza.

 

Emerson Braga

13/04/2015, segunda-feira

   

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JOSÉ, UM BRASILEIRO

 

José é o típico homem de bem. De origem humilde, é um cidadão pacato, gentil, que paga suas contas em dia, vai à igreja e sempre organiza churrascos para toda a vizinhança em época de Copa do Mundo.

 

Morador do Vale dos Sonhos, em Goiânia, José mudou-se para Brasília ainda criança de braço. Lembra com orgulho da imagem idealizada que construiu para o próprio pai, sertanejo forte e trabalhador que havia ajudado na edificação da capital do país. As mãos paternas estão por toda a parte: No Palácio do Governo e na Catedral, nos edifícios dos Ministérios e no Parlamento. Vitimado pelas complicações de saúde acarretadas por um grave acidente de trabalho, o velho não vivera para ver acabada a obra que consumira sua vida.

 

Viúva, sem lugar parar morar e com três filhos pequenos, a mãe de José mudou-se para Goiânia e lá trabalhou na indústria têxtil até morrer, dois meses depois de se aposentar. Não resistira ao agravamento de uma doença respiratória decorrente da exposição prolongada à poeira, metais e fumaça que seu trabalho a submetera por tantos anos. A empresa mandou uma coroa de flores. Que honra. Seus patrões eram bons cristãos, tementes a Deus.

 

Segurança do condomínio de luxo Aldeia do Vale, José considera-se um privilegiado por trabalhar tão perto de casa e por ajudar na manutenção da ordem e da lei. Denunciar os filhos de seus vizinhos ― que invadem as mansões a fim de furtar objetos de valor ― não lhe causa constrangimento algum. Pelo contrário, sente-se importante quando os policiais permitem que ele também aplique justos corretivos nos menores delinquentes. “Uma boa pisa bota qualquer um nos eixos. O que não se aprende com a bíblia, o cassetete ensina”, dizia José ao ver algemados os meninos que vira crescer junto dos seus. Por isso, seus famosos churrascos eram tão importantes, para que não perdesse a simpatia da gente decente e de bem que vivia em seu bairro. José queria mais era que os bandidinhos se ferrassem. Contanto que seus filhos (os legítimos e os que tivera com sua cunhada) crescessem obedientes e íntegros, tudo permaneceria bem.

 

Ontem, um cirurgião plástico que reside no Aldeia do Vale, convidou José a fim de que juntos seguissem para uma manifestação popular contra a corrupção e a favor do impeachment da senhora presidenta do Brasil. Embevecido com o ilustre convite, José correu para casa e, seguindo as orientações de seu abastado amigo, vestiu uma camisa da seleção canarinho e se armou com duas frigideiras. Determinado, ajudaria Dr. Antero Patriota a colocar o Brasil nos eixos.

 

― Já dirigiu um carro desses, Zé? ― perguntou muito bem humorado o cirurgião sentado à direção de seu Audi Q7 ― Tem nem perigo, hein? No Ceará o possante é um jegue bem nutrido, não é não?

 

Apesar de não possuir sotaque, não se identificar com o povo cearense e jamais ter retornado ao estado natal desde que se mudara para Goiás, José gargalhou gostosamente da pilhéria e, espirituoso que é, simulou com perfeição um som equídeo e apenas cessou o artificial relincho quando foi dada ignição no veículo. Que máquina! Trabalharia bastante e sem reclamar para um dia comprar um carro ao menos parecido com aquele. Se continuasse agradando as pessoas certas, talvez pudesse se mudar para um bairro melhor. Queria mais da vida que morrer no Vale dos Sonhos. Quem sabe aprendesse, inclusive, a pronunciar a palavra “impeachment” sem levar as pessoas ao riso.

 

Que cena bonita! Duas realidades distintas que dividem o mesmo sonho rumaram em direção à Brasília a fim de fazer história. O ricaço da Aldeia do Vale e o pobretão do Vale dos Sonhos. Antero e José derrubando todas barreiras sociais, ambos vestidos com blusas da seleção brasileira. Uma utopia possível, em um mundo que construiriam juntos.

 

― Ué? Tua blusa tem seis estrelas, homem de Deus! ― observou o cirurgião.

 

― Comprei de um camelô ― confessou José, constrangido diante da imponente camiseta oficial vestida por Dr. Antero ― Acho que ele acreditava que seríamos hexa...

 

Nova gargalhada. Novo relincho.

 

Durante o trajeto, muito apaixonadamente, o cirurgião explicou ao segurança a situação atual do país. Criticou beijos lésbicos em novelas, as depravadas Marchas das Vadias, a lei do feminicídio e a adoção de crianças por casais gays. Defendeu a diminuição da maioridade penal, a intervenção militar, a institucionalização da pena da morte, a privatização de grandes estatais e a aprovação da lei de terceirização. Doutor Antero falou de tudo um pouco, enquanto esmurrava o volante e salivava eufórico. José bebeu aquelas palavras como se estivesse diante de um oráculo. Imediatamente, identificou-se com as atraentes ideias e tomou-as para si como se fossem suas. “Somos iguais”, pensou José enquanto acariciava com o olhar a bandeira nacional posta sobre o colo daquele cidadão exemplar, daquele modelo de homem. Como ele, um verdadeiro indignado.

 

― O senhor é patriota até no nome, não é, doutor Antero? ― brincou José, arrancando daqueles dentes de rara brancura uma saborosa risada.

 

De volta à cidade que seu pai havia ajudado a erguer, José empenhou-se em fazer pequenos serviços para os amigos de doutor Antero ― militantes do Movimento Brasil Livre ―, como comprar água e lanche. Corria de um lado para o outro, solícito, devidamente adestrado por seu companheiro de caça aos corruptos dos quais sequer sabia o nome ou que funções desempenhavam.

 

― Vai, José! Bate essas panelas! ― dizia esfuziante o engajado cirurgião, enquanto conversava por celular com o filho que mora na Europa e que também participava do protesto através do Skype.

 

Empolgado, José martelava as frigideiras enquanto cantava do hino nacional os trechos que conhecia. Com lágrimas nos olhos, acompanhados de dois policiais militares, posou com doutor Antero para uma fotografia. Pela primeira vez, sentia que fazia parte de algo importante, que poderia ajudar a mudar as coisas, que não havia divisão entre pobres e ricos. “Somos todos um só! Nosso partido é o Brasil”, gritavam, lado a lado, feito correligionários, como dois irmãos.

 

De repente, a manifestação deparou-se com um jovem vestido de camiseta vermelha e passaram a gritar-lhe insultos. Mandaram-no partir para Cuba, xingaram-no de traidor e comunista. Sorridente, o provocador deu de ombros, como se as ofensas não lhe dissessem respeito, o que inflamou ainda mais os humores de toda a gente.

 

Extasiado, transformado em viril defensor da família brasileira, José avançou sobre o rapaz e feriu-lhe o alto da cabeça com um violento golpe de frigideira. Houve tumulto. Uns aplaudiram, outros reprovaram. O moço, com o sangue a escorrer pela face transtornada, encarava um José satisfeito do próprio ato, pronto para agredi-lo ainda mais. “Tudo! Qualquer coisa por meu país!”, pensava o mais novo ativista da moral, da decência e dos bons costumes: O incorruptível José Ferreira da Silva, um brasileiro.

 

Antes que a polícia o levasse embora, José ainda procurou por doutor Antero, mas não conseguiu distinguir a face amiga dentre tantos rostos que pela primeira vez o notavam. Câmeras filmadoras e fotográficas o perseguiram em frenesi, até ele finalmente ser escoltado para dentro da viatura.

 

Hoje, pela manhã, José foi demitido. Doutor Antero e os outros condôminos não podem confiar a segurança do Aldeia do Vale a um homem violento como ele. Era o certo. Afinal, ali só mora gente de paz.

 

Emerson Braga

13/04/2015, segunda-feira

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DESPEDIR-SE É REAPRENDER A EXISTIR


Ontem, contra minha infantil vontade de ainda tê-lo por tantos anos a meu lado, a vida obrigou-me a dizer adeus a um homem que amei como se ama a um pai, que me amou como se ama a um filho. Vê-lo partir ― apesar da certeza de que este dia aproximava-se, na contramão de nossos infantis apelos ― foi muito, muito doloroso. A sensação que experimentei foi a de que, naquele instante em que o esquife desceu sete palmos terra adentro, eu deixei um pouco de existir.

 

Estranhamente, não houve orações, cânticos ou discursos apaixonados no momento de seu sepultamento. Somente o choro dos parentes e amigos e o lamento de sua esposa que, em seu último instante junto ao corpo do homem que amara por toda a vida, fez a mais bela declaração de amor que jamais ouvi nas ruas, vi nos filmes ou li nos livros. Apenas sua voz indignou-se contra o trabalho da morte, enquanto nós todos nos mantivemos  quietos.

 

Não me pareceu natural a ausência de ritos cristãos em um funeral de minha família, que é muito religiosa. Apesar de eu não partilhar de suas crenças, não entendi por que meus parentes não estavam se despedindo da única maneira que sabem: Através da fé.

 

Apenas hoje, ao acordar menos afetado pela dor da perda, pude compreender a razão do silêncio.

 

Estávamos todos perplexos. Apenas a total perplexidade, paradoxalmente posta diante da certeza da morte, pode justificar a ausência de rezas e ladainhas; as canções emudecidas em nossas vozes tomadas pelo soluço; a palavra mitigada, enfraquecida, em minha garganta de homem apaixonado pelas letras.

 

 

Não sabíamos o que dizer, o que orar ou cantar. Diante da sepultura aberta como uma porta para o nunca mais, entendíamos apenas a lágrima e a separação. A dor transformada em mantra, o pranto convertido em uma única voz que repetia sem trégua: Fica! Fica! Fica!

 

Mas ele partiu. Partiu e, então, todos nós deixamos de existir por um instante. Pois nossa existência estava vinculada a dele, inevitavelmente ligada à sua hombridade, humanidade e sabedoria. Perdemos um homem que nos ensinou a viver com tão pouco e, por isso mesmo, sem dúvida alguma, foi o homem mais rico que já conheci, possuidor de um tesouro inestimável: Uma alma que brilhava na escuridão feito uma teimosa e ardente chama de vela. Uma vela que se apagou, mas cujo calor permanece em nossos corações.

 

Talvez despedir-se seja uma oportunidade para reaprendermos a existir. Portanto, renasceremos todos. Seremos outros. Espero que pessoas melhores. Criaturas tão boas, gentis e generosas quanto o homem que ontem assistimos partir.

 

 

Te amamos para sempre, João.

 

Emerson Braga

08/04/2015, quarta-feira

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SOBRE CRACHÁS E SOB ESCOMBROS

 

Nos dias que andei sumido, o plano era apenas cuidar de meu romance antes de enviá-lo para avaliação do Prêmio SESC de Literatura. Porém dois livros escritos por amigos maravilhosos chegaram às minhas mãos e, assim, tornou-se uma tarefa impossível manter a disciplina. Entre a revisão ortográfica e gramatical de um capítulo e outro, transgredi as regras que eu mesmo havia estabelecido e, ora me deleitava com o riso gostoso de CARA DE CRACHÁ, de Roberto Klotz; ora me entregava aos soluços de esperança presentes nas entrelinhas de SOB OS ESCOMBROS, de Cínthia Kriemler.

 

Não sou de ler dois livros ao mesmo tempo. Sei que escritores (principalmente os talentosos) são ciumentos de suas obras e preferem que nos enamoremos por um trabalho de cada vez. Todavia, Cínthia e Roberto são dois queridos que, creio eu, não se importarão com minha transgressãozinha, pois ― apesar de talentosos e ciumentos ― já dividiram muita coisa na vida. Então, por que não dividir este faminto leitor?

 

CARA DE CRACHÁ é um destes livros que resguarda em suas páginas leves e cheias de graça, a seriedade daqueles que têm algo de importante a dizer. Em seus contos divertidíssimos e pontuados por um sarcasmo elegante, Roberto Klotz nos apresenta a cidade de Brasília na forma caricata mais viva em nossos preconceitos (que veem a capital federal como uma cidade de gente corrupta, tomada por inércia laboral e povoada por pessoas frias e cinzentas) justamente para desmantelá-los e humanizar a cidade onde vive e que tanto ama.

 

No microcosmo de uma repartição pública, onde se desenrolam os causos hilários contados por Klotz, revela-se uma representação não apenas de Brasília, mas de todos os brasileiros. Nós ― cotidianamente mastigados por essa máquina burocrática, que nos enrijece a ternura e a gentileza ― que também somos capazes de realizar e vivenciar momentos de plena doçura, como o experimentado por von Silva e o pequeno e encapetado Tonim no conto 24 de dezembro.  

 

CARA DE CRACHÁ é isso: Rir das próprias mazelas para que despertemos da apatia e nos tornemos entes transformadores de nosso mundo lobotomizado, tão carente de ideologias e alegrias reais.

 

Já SOB OS ESCOMBROS, trata-se de um emaranhado de histórias que se arriscam a confessar segredos que jamais diríamos, pela vergonha ou pela dor que nos causaria a revelação. Daí, você me pergunta: “Então por que Cínthia Kriemler resolveu contá-las?”. Respondo: Porque alguém tinha que fazê-lo, ora!

 

A um olhar desatento, SOB OS ESCOMBROS pode parecer um livro difícil de digerir, que versa sobre separações, dores, culpa, mentiras dolorosas e verdades mais dolorosas ainda. Mas não é. A delicadeza e a força tão presentes na escrita da autora nos conduz à beira do abismo, o que torna a vertigem inevitável. Os escombros dos quais fala o título escondem a doçura, a coragem, o fio de esperança que nunca abandona corações inquietos. E esta inquietude permeia cada um dos personagens (humanos e não humanos) e entranha-se em nossa própria alma à medida que nos entregamos à leitura e caminhamos dentre trevas e luzes, em uma provocação aos sentidos, como no fenomenal conto Dia de Morte.

 

SOB OS ESCOMBROS não é um livro simplesmente para ser lido, mas medido, pensado, absorvido. É um convite à seguinte reflexão: “A vido que vivo permite que eu viva?”.

 

 

Para adquirir o livro CARA DE CRACHÁ, segue o link:

http://robertoklotz.blogspot.com.br/

 

Para adquirir o livro SOB OS ESCOMBROS, segue o link:

http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=101

 

Faça como fiz: LEVE OS DOIS!!!!!!!

 

Emerson Braga

 

 

10/02/2015, terça-feira

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  • #1

    Cinthia (Saturday, 22 August 2015 23:21)

    Só hoje vi esta resenha. Mas quero registrar meus sinceros agradecimentos à sua generosidade, meu amigo! Beijo na alma!

INSURREIÇÃO E PESTICIDA

 

Escalou a parede com habilidade inerente a criaturas subversivas. Determinada e destra, passeou por entre os quadros de José Sarney e João Paulo II sem demonstrar nem o mais tênue sinal de respeito a ambos. Parecia apressada, talvez ansiasse por em prática seu heroico projeto antes que algum membro da família abandonasse a sala de estar. Aproveitou-se da distração de todos, sabia que Ary Fontoura em cena jamais permitiria que alguém ousasse levantar para vasculhar a farta geladeira.

 

 

Estava sozinha. Apenas contava com a amizade de suas companheiras quando rastejava pela sarjeta, em lugares apertados e úmidos, onde geralmente dormia, a fim de não ser descoberta e aniquilada. O fato de não estar em bando não diminuía sua audácia e valentia, bastava-se. Para desestabilizar a sensação de paz da qual gozavam seus opressores, não carecia de um grupo organizado.

 

         Posta em estado de alerta sobre o relógio de parede, esticou-se toda a fim de que suas extremidades não falhassem durante o corajoso voo, não temia os pés calçados em chinelos, toda kamikaze. As asas eriçaram como se testassem a direção do vento, adivinharam as possíveis rotas, então, aventurou-se pelo percurso que, instintivamente, pareceu-lhe o mais seguro. Decidida, repleta de uma liberdade que não cabe por detrás de paredes, mergulhou na imensidão da sala antes que Regina Duarte beijasse os lábios de José Wilker. Inúmeros pares de olhos acompanharam sua intrépida investida, mudos por um ou dois segundos, antes do corre-corre e gritaria inevitáveis. Com destreza e perícia, deu voos rasantes sobre rostos e cabelos, ameaçou posar em ombros e adentrar decotes, fez movimentos circulares sobre as cabeças febris. Instalado o caos de bibelôs quebrados e inimigos desorientados, descansou sobre a porta da sala, satisfeita.

 

         O golpe certeiro do pai – tirado de seu sossego pela baderna que constrangia a ordem imposta por sua autoridade – achatou-lhe por completo o pequeno corpo, antes que ela pudesse concluir sei intento em vingar a morte de duas amigas, assassinadas ainda naquela mesma semana. Uma fora esmagada no banheiro. A outra acabara presa em uma fatal armadilha, posta sob a pia da cozinha.

 

         – As coisas não podem permanecer como estão! – protestou uma das baratas após as homenagens póstumas, prestadas sob o assoalho, à amiga recentemente falecida. Seu clamor inflamou as demais que, do alto dos canos de esgoto, proclamaram a necessária revolução.

 

         Não tiveram a oportunidade sequer de abandonar com segurança seus esconderijos. Foram fulminadas. Inocentes (como toda criatura romântica), acreditavam que a luta seria contra chinelos e vassouras.  Acabaram exterminadas pela solução final: Baygon.

 

Emerson Braga

 

15/01/2015, quinta-feira

 

 


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PELO DIREITO DE ESCOLHER!

 

  

O aborto não pode ser discutido apenas sob a perspectiva de quem é contra. As principais interessadas, as mulheres que veem no aborto uma opção viável (mesmo que radical), precisam ser ouvidas e ter suas opiniões respeitadas.

 

 Mulheres que optam pelo aborto não podem ser chamadas de “assassinas”. Vamos desmistificar essa bobagem, posto que aborto e assassinato são coisas bem diferentes.

 

ABORTO

 

* Procedimento médico.

 

ASSASSINATO

 

* Não é um procedimento médico.

 

ABORTO

 

* Índice de ocorrências independe da legalidade.

 

ASSASSINATO

 

* É desencorajado através da criminalização e punições severas.

 

ABORTO

 

* Ocorre dentro do corpo de um indivíduo a pedido do mesmo indivíduo.

 

ASSASSINATO

 

* Cometido por uma pessoa contra outra pessoa totalmente separada que não está transgredindo o corpo do perpetrador.

 

ABORTO

 

* É o único tratamento para várias condições médicas severas, incluindo gravidez tubária e pré-eclampsia.

 

ASSASSINATO

 

* Nunca é uma necessidade médica para o perpetrador.

 

ABORTO

 

* Interrompe o desenvolvimento de um embrião/feto não senciente, inconsciente e incapaz de sentir dor.

 

ASSASSINATO

 

* Interrompe a vida de uma pessoa senciente, consciente e independente.

 

ABORTO

 

* Se tornou ilegal para proteger os interesses financeiros e religiosos de alguns grupos.

 

ASSASSINATO

 

* É considerado quase universalmente como um ato imoral, se tornou ilegal para proteger a vida das vítimas em potencial.

 

Agora, para ilustrarmos, pensemos da seguinte forma: Digamos, hipoteticamente, que precisemos decidir entre a vida de um homem de 93 anos, que vive em estado vegetativo, sobre uma cama de hospital; e a vida de uma mulher saudável, produtiva e jovem. Por mais que nossas crenças religiosas e sentimentos pessoais sejam a favor da vida, é óbvio que, em uma situação extrema como esta, optaríamos pela vida da mulher, tendo em vista principalmente que o paciente em estado vegetativo não sentiria nenhuma dor e nem experimentaria sofrimento durante o procedimento.

 

Pois bem. Aborto também é uma situação extrema. A mulher que decide pelo aborto irá fazê-lo com o consentimento da Lei ou não, pois ela se sente livre para tomar decisões acerca de seu próprio corpo. É um direito dela. Isto sem falar que, de acordo com um estudo publicado e divulgado pelo jornal inglês The Guardian, o feto humano não sente dor antes de 24 semanas de concepção. As conexões nervosas no cérebro do feto não são formadas antes desse período. O Royal College of Obstetricians e Gynaecologists (Faculdade Real de Obstetras e Ginecologistas), da Inglaterra, também descobriu que a consciência não é formada no período.

 

As descobertas sugerem que abortos conduzidos dentro das 24 semanas não resultam em sofrimento do feto. Isso seria porque há evidências que o ambiente químico no útero induz "uma inconsciência permanente como sono ou sedação".

 

Como podemos ver, aborto não é assassinato. Assassinato é permitir que centenas de mulheres morram todos anos vítimas de hemorragia ou infecção resultantes de procedimentos feitos de maneira grosseira e artesanal.

 

Compreendo que muitas pessoas sejam contrárias ao aborto. Também sou. Se eu fosse mulher, muito provavelmente não optaria pelo aborto caso engravidasse de repente, sem planejamento. Mas eu também gostaria de ter assegurado o direito ao aborto caso minha decisão fosse diferente.

 

Legalizar o aborto não fará que haja um boom de interrupção de gravidezes, as mulheres não abortarão a cada nove meses. Acredite: Abortar não é divertido, não é um passeio no parque.

 

E, ao contrário do que se diz por aí, a maioria dos abortos não é praticada por garotas jovens e solteiras, xingadas exaustivamente de vadias e irresponsáveis por terem vida sexual. Quem mais aborta no Brasil são mulheres católicas, casadas, que trabalham e têm filhos. Elas optam pelo aborto como último instrumento de planejamento familiar. Afinal, os meios contraceptivos podem falhar (e falham). Além disso, muitas delas, por razões de saúde, cessam o uso de anticoncepcional e seus parceiros se recusam a usar preservativo.

 

No Uruguai, inclusive, o número de abortos no país diminuiu após a descriminalização. Tendo em vista que o tema deixou de ser tabu e passou a ser discutido francamente por toda a sociedade, o que possibilitou maiores esclarecimentos e conscientização.

 

Mulheres que optam pelo aborto não são criminosas desumanas e inescrupulosas, como muitos propagam por aí. São meninas, moças e senhoras que precisam enfrentar sozinhas e clandestinamente talvez a mais difícil decisão de suas vidas. Elas precisam de apoio, não de condenação.

 

Uma pessoa pode até ser contra o aborto, mas não pode julgar ou interferir na decisão destas mulheres.

 

 

 

Emerson Braga

 

07/01/2015, quarta-feira

 

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NOITE DE NATAL

 

Palmira sentou-se à soleira da porta a fim de aproveitar o pouco da brisa que vinha da Avenida Perimetral e também para ser a primeira a ver quando ele chegasse. Estava cansada. As duas faxinas que tinha feito naquele dia haviam esgotado todas as suas energias. As pernas e os braços pareciam-lhe quatro molambos inúteis que, com alguma dificuldade, mantinham o caçula sobre seu colo. O peito dele não chiava mais, estava curado. Palmira cheirou a cabeça do filho e tentou amá-lo ainda mais, mesmo sabendo que aquela seria uma tarefa impossível. Durante alguns meses, quem sabe por um ano inteiro, não tivesse que voltar ao hospital. Quanto ao exame de prevenção do câncer, como havia dito a agente de saúde, apenas seria feito na Clínica da Família quando aparecesse vaga. Tinham-se passado dois anos desde seu último exame, sentia medo, mas não tinha pressa.

 

Aquela mulher esqueceu foi meu nome, tem medo de vir onde moro – lamentava Palmira, apalpando receosa o seio livre do apetite voraz de seu menino. Tenho nada não, uma coitada igual a mim não há de pegar doença de granfino – concluiu aliviada enquanto observava o vai e vem das pessoas correndo contra a meia-noite.

 

Minha filha não vem com o marido, então eu trouxe um pouco de bolo mole pra tu – disse a vizinha com a qual Palmira não se dava bem, estendendo um prato de alumínio, quatro fatias de bolo, uma para cada membro da família. A disputa por um varal não poderia ser motivo para tanta intriga, não em noite como aquela, em que o filho respirava sadio e feliz em seu colo, com lugar garantido na creche, e o outro brincava na sala, contente com a matrícula em colégio particular e o fardamento completo que havia recebido como prêmio em um concurso de redação, primeiro colocado.

 

Meu gás acabou bem na horinha que ficou pronto, acredita? – riu Palmira para a mulher, devolvendo à vizinha o prato cheio de farofa de frango desfiado. Satisfeita com mais uma opção para sua magra ceia de natal, a vizinha espremeu-se à Palmira, em um abraço desajeitado e em seguida voltou para sua casa enfeitada com um pisca-pisca banguela, posto em sinal de festa sobre a porta da rua. No dia seguinte, voltariam a brigar por qualquer coisa, mas estavam felizes por terem uma a outra, pois, naquelas ofensas e maldições cotidianas, elas aprendiam mais sobre amizade e amor que suas sorumbáticas patroas – tão lapidadas e frívolas, tão gentis e ocas – jamais saberiam. 

 

E teu pai que não chega? – queixou-se ao filho mais velho enquanto seu pescoço esticava na direção da esquina pouco iluminada e na qual, dia desses, haviam matado um travesti que era muito seu amigo e que a maquiava quando ela pedia.

 

A cachaça. Palmira tentou fugir do pensamento, da triste recordação do último natal. Procurou livrar-se da lembrança dolorosa e se concentrar no filho que, corado e forte, sugava-lhe o leite. O leite. Mas a cachaça não saía de sua cabeça.

 

Já tá tarde e ele não chega, e se ele botar boneco e for preso de novo? – temia Palmira o pior. Uma perna nervosa, a unha pintada do dedão triturada por seus dentes. Da última vez, a polícia bateu tanto nele que o pobre só teve alta depois do ano novo – lamentou gravemente não a vergonha de vê-lo preso por embriaguez, mas a violenta e desnecessária injustiça.

 

Dizem que a miséria mata o amor. Mas Palmira era uma necromante talentosa, conversava com o amor quase morto e o trazia de volta à vida mais robusto, mais ardente.

 

Ele tem lá a bebida dele, mas nunca me bateu – dizia para si, orgulhosa por ser a única mulher de sua rua que jamais havia apanhado do esposo. Chamavam-no de frouxo. Era não. É preciso coragem para não ferir quem se ama, mesmo quando o desespero nos apodrece a virtude de sermos pessoas boas.

 

Quando terminou a novela das 21 horas, esfregando os olhos, o menino mais velho aproximou-se da mãe e recostou a cabeça em seu colo, no qual o caçula dormia satisfeito, saciado. O gelo na jarra de suco de maracujá iria derreter e a comida esfriaria, as baratas e seus ardis passeariam sobre a ceia irreal, mesmo sendo a fome verdadeira.

 

Foi a cachaça de novo – constatou Palmira com tremenda tristeza e resignação, sabia que no dia seguinte teria que procurá-lo no 8º Distrito Policial ou nos hospitais, sentia dores na alma apenas de pensar em encontrá-lo numa vala qualquer, sem vida. Se meu Vicente morrer, eu me mato, me mato, e tu, Deus, vai ter que cuidar desses inocentes – chorou Palmira sem alarde, abraçada aos filhos, ausente a coragem de desejar-lhes feliz natal.

 

Que é isso, nêga, tá chorando por quê? O emprego é meu, piveta, o emprego é meu – comemorou Vicente enquanto gargalhava sem cheiro de pinga, junto à mulher que parecia emergir de um medonho pesadelo.

 

Surpresa com o marido que havia surgido do nada, feito um mágico maravilhoso, Palmira enroscou trêmula seu braço ao pescoço do homem que amava e beijou-o com a mesma doçura que o beijara um dia, diante de um padre. Manteriam o juramento mútuo, ficariam unidos até o fim.

 

Agora eu tô chorando é de felicidade, pivete – riu Palmira, envergonhada, enxugando com as costas das mãos as lágrimas que não possuíam mais razão de ser. Anda, entra, que eu caprichei na ceia, e tu não vai me acreditar, meu lindo, a lacraia da Ana Néri trouxe quatro pedaços de bolo mole pra gente, tu acha? Tudo isso parece até milagre de natal, né não?

 

Emerson Braga

25/12/2014, quinta-feira

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NOS HEMOCENTROS, O PRECONCEITO SANGRA

 

No dia 12 de agosto deste ano, completei exatos 38 anos de vida. Uma vida feliz, da qual não me queixo. A fim de estendê-la, já que ela me diverte e atrai, resolvi fazer uma bateira de exames para verificar como anda a máquina. Não se enganem: Mesmo que estejamos em um relacionamento estável (Eu namoro há três anos com o mesmo sortudo), esperar resultado de exame de sangue, por mais que você se cuide, é como se colocar diante da porta dos desesperados. Nos angustiamos, temos pesadelos, roemos unhas; até que o maldito resultado sai e você pode ler com felicidade, em letras garrafais: “NÃO REAGENTE PARA HIV”, “NÃO REAGENTE PARA SÍLFILIS”, “NÃO REGANTE PARA HEPATITE B”, “NÃO REGENTE PARA HEPATITE C”. Ah! É como desembrulhar um chocolate e comê-lo sozinho! Felicidade. Alívio.

 

Hoje pela manhã, satisfeita com o nível de hemoglobina indicado em meus exames, Dra. Rosália (clínica geral maravilhosa, com um olhar holístico sobre seus pacientes) recomendou que eu me tornasse doador de sangue. Pensei: “Pô, por que não dividir essa felicidade com o planeta? Por que não devolver um pouco da paz e alívio que acabei de ganhar?”.

 

Saí da consulta e fui para o trabalho, decidido a me tornar doador de sangue assim que encerrasse o expediente.

 

Meu namorado me acompanhou até a Praça do Ferreira, onde sempre se encontra disponível uma unidade móvel do HEMOCE. Me cadastrei para doação de sangue e também aderi ao programa para doadores de medula (meu namorado cadastrou-se apenas para o último). Depois que retirou sua amostra, ele foi embora e eu fiquei aguardando minha vez. Ainda não fazia ideia do constrangimento pelo qual eu passaria.

 

Tiraram minha pressão, fizeram teste de anemia, e tudo deu normal (o que eu já esperava, devido os exames que eu já havia feito). Foi no momento da entrevista que a coisa começou a ficar esquisita, claustrofóbica.

 

A agente me perguntou se eu já tive coqueluche, se havia feito alguma cirurgia recentemente, se usava drogas e também perguntou se eu era homo ou heterossexual. Quando respondi que era gay, ela me olhou com seriedade e perguntou: “Você gosta de homem?”, respondi com um sorriso: “ADORO!”. Ainda muito séria, ela desculpou-se e disse que me fazia aquela pergunta por que muitas pessoas não entendem o que seja “homo” ou “hétero” (Para ser franco, eu também não entendo...). Até então, tudo bem. Daí, ela me perguntou se eu estava em um relacionamento estável, disse eu que há três anos namoro o mesmo cara e que sempre usamos preservativo em nossas relações sexuais. Meu questionário e meu estado de saúde atestavam que eu estava totalmente apto para me tornar doador, mas fui rejeitado. Ela explicou-me que lésbicas podem doar sem problema, mas homossexuais masculinos não, porque praticam sexo anal, o que aumenta o risco de contaminação. Foi difícil descobrir que mulheres não têm ânus e que não existem homens com estilo de vida heterossexual que praticam relações homossexuais esporádicas, que envolvem sexo anal com outros homens. Claro que eu quis saber de que inferno eles haviam tirado a ideia estapafúrdia de que meu sangue não servia, daí tive conhecimento da Portaria 2712, de 12/11/2013 do Ministério da Saúde.

 

A tal Portaria trata como “inaptos temporários” à doação de sangue homens que tiveram relações sexuais com outros homens. Para que um homossexual masculino possa doar sangue, ele precisa estar, no mínimo, há um ano sem fazer sexo. Que pessoa saudável fica um ano sem fazer sexo?! Não ingressarei em nenhuma religião que exija voto de castidade, pois sou ateu; não tenho nenhuma patologia de ordem fisiológica ou psicológica que me impeça de transar quantas vezes eu quiser por ano. Aliás, se os bancos de sangue se mantivessem graças àqueles que passam um ano inteiro sem sexo, não teriam nem 5 litros por mês em todo o território nacional!

 

Bem, voltemos à Portaria. Ela traz uma determinação restritiva que, mesmo não abordando diretamente questões de orientação sexual e identidade de gênero, enquadra os homossexuais masculinos:

 

“Art. 64. Considerar-se-á inapto temporário por 12 (doze) meses o candidato que tenha sido exposto a qualquer uma das situações abaixo:

 

IV – homens que tiveram relações sexuais com outros homens e/ou as parceiras sexuais destes”.

 

No entanto, logo em seu segundo artigo, apresenta um parágrafo que estabelece o contrário:

 

“Art. 2º, § 3º Os serviços de hemoterapia promoverão a melhoria da atenção e acolhimento aos candidatos à doação, realizando a triagem clínica com vistas à segurança do receptor, porém com isenção de manifestações de juízo de valor, preconceito e discriminação por orientação sexual, identidade de gênero, hábitos de vida, atividade profissional, condição socioeconômica, cor ou etnia, dentre outras, sem prejuízo à segurança do receptor.”

 

Essa Porcaria, desculpem-me!, Portaria fere o artigo 5º da Constituição Federal, segundo o qual “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Se o motivo de homossexuais masculinos não poderem doar sangue não for por conta da orientação sexual, mas pelo fato de manterem relações anais, é no mínimo estranho que heterossexuais que praticam sexo anal não estejam incluídos.

 

Já fora da sala de entrevista, falei que compreendia porque eles não poderiam coletar meu sangue, mas que eu não concordava com aquilo, que era uma atitude discriminatória e que fomentava preconceitos na sociedade. Uma funcionária, então, pediu que eu não falasse sobre o assunto para não causar desconforto aos outros doadores. E o meu conforto? Como eu estava me sentindo não contava?! Minha raiva, decepção e vergonha nada significam? O constrangimento pelo qual passei é irrelevante? Reconheci no olhar daquela mulher o mesmo olhar que lançam os machinhos babacas quando um gay entra no banheiro masculino; o mesmo olhar das mães que afastam seus filhos de travestis, como se eles carregassem uma doença contagiosa; o mesmo olhar de padres sádicos; de pastores monstruosos; de políticos aloprados; o mesmo olhar de vizinhos que jamais dariam o cu, mas que adoram imaginar o que andamos fazendo do nosso.

 

Tenho plena consciência de que homossexuais masculinos realmente estão mais expostos à contaminação por meio de práticas sexuais. Mas nós estamos mais suscetíveis à infecção e ao adoecimento pelo vírus HIV ou qualquer outra doença venérea porque nos é negado a dignidade de uma relação aberta diante da sociedade que nos oprime. O preconceito nos transforma nos promíscuos que ameaçam a saudável e virginal família brasileira.  A homofobia e a transfobia impactam negativamente em nossa autoestima. Isto, somado às dificuldades de sociabilidade e à hostilidade no ambiente escolar, resulta na exclusão do convívio familiar, na descontinuidade da educação formal e na desqualificação para o mercado de trabalho. Assim, nós homossexuais acabamos marginalizados, o que nos transforma em alvo de violência física e psicológica.

 

Se homossexuais pudessem namorar dentro de casa e frequentar espaços públicos na companhia de seus parceiros, certamente não fariam de suas vidas sexuais uma prática clandestina. Estariam menos inclinados à promiscuidade e menos expostos ao sexo desprotegido.

 

 O que passei hoje é mais uma prova de que precisamos estar vigilantes, precisamos lutar contra essa ameaça antes que ela se torne parte de nossas vidas.

 

Apenas o preconceito é capaz de alavancar contradições como esta: Os estoques de sangue no país não atendem à demanda; muito pelo contrário, sempre estão em situação preocupantes e, mesmo assim, se dão ao luxo de desprezar a doação de sangue de determinadas populações, o que reforça a discriminação já tão praticada por boa parte da sociedade.

 

Tentei doar sangue na esperança de poder ajudar a salvar a vida de alguém. Saí do HEMOCE sangrando, ferido por uma texto seboso que diz estar salvando vidas, enquanto atira tantas outras para o universo dos indesejáveis, onde não há lei, onde somos humilhados, espancados e assassinados.

 

Ao menos consegui que coletassem minha amostra para o banco de medula. No que depender de mim, sempre haverá esperança.

 

Emerson Braga

 

18/12/2014, quinta-feira

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LIMBO DAS PEGAÇÕES

 

 

Outra dose de vodca, mais uma orbital roxa posta sob a língua. A noite agita-se e os entendidos gritam ao som da balada inebriada pelo cheiro doce da fumaça aromatizada, pelas luzes que piscam como explosões cósmicas, big bangs que dispersam novos universos sobre os pensamentos entorpecidos. A pele tremula febril enquanto o corpo se prepara em nossa selva de insalubres sabores para a dança do acasalamento. Somos todos presas e caçadores, que atiram suas redes enquanto caem tranquilos em outra armadilha.

 

As bichas bombadas já tiraram suas camisetas e se puseram a sacudi-las acima de suas cabeças que só pensam em rapazes franzinos e de paus enormes. Todas dotadas de bíceps que desafiam a anatomia humana, repletas de hormônios equinos. Mantém seus músculos resplandecentes sob os holofotes, transpiram como se estivessem besuntadas, amanteigadas, envernizadas para a truculenta trepada da noite. Esses caras são uns vampiros narcisistas, escravos da própria estética corpórea. Eles nos esmagam dentre suas nádegas rijas e firmes, com suas bundas projetadas por um ramo do fisiculturismo que fabrica estivadores que precisam com tremenda urgência ser enrabados duas ou três vezes ao dia; antes que se tornem flácidas todas as carnes e a idade acabe por torná-los obsoletas peças de abatedouro.

 

Do outro lado encontro as afetadas, espreitam vigilantes próximas ao banheiro. Aguardam pacientemente por adolescentes trôpegos e de arbítrio fulminado pelo efeito do álcool batizado. Por que esses veados falam tão alto e gargalham como se tudo ao redor fosse uma grande piada? Não passam de umas putas estridentes, agem como insuportáveis gralhas. Enquanto arquitetam seus planos sensuais de ataque aos bêbados e drogados da noite, aproveitam para descrever em detalhes suas improváveis façanhas sexuais, incrementadas por tolas inverdades. São uns coitados que não sabem nada além da própria dor, uns pedintes que mendigam o prazer alheio, postos de joelhos ao lado dos mictórios, de bocas escancaradas, à espera do corpo e do sangue que os condena a regular sensação de pecado. Bebem sedentos do esporro que lhes proporciona a amnésia capaz de silenciar a voz de recalques. Em banheiros públicos, todo gozo absolve e é santo.

 

Lá, juntos ao balcão, quatro michês aguardam pacientemente por clientes incautos e dispostos a terem suas carteiras esvaziadas e as expectativas preenchidas com uma noite sudorífera e venérea. Putos merecem cada centavo que nos arrancam, pois não nos chateiam com as coisices típicas dos relacionamentos que não são venais. Não cobram nada além da paga pelos serviços que nos prestam, não nos telefonam quando queremos estar sozinhos e em silêncio, não nos contam histórias tristes, não perguntam sobre os hiatos de nossas vidas, não nos respeitam, não nos amam. Michês não são homens, são punhetas elaboradas que não possuem apenas cinco dedos, mas cabeça, tronco e membros. Todos tesos, eretos, ansiosos pela grana que se segue à cópula calculada com antecedência. Um simples beijo na boca pode dobrar o valor do profissional que amante se faz porque assim o tornamos com nosso poder de compra. Um deles me olhou demoradamente. Estou quase liso... Outra vodca.

 

Não quero voltar à pista de dança. Preciso diminuir minha frequência nesses inferninhos entendidos. Aqui está impregnado de mil caras com quem já fiquei, dos quais não recordo o nome e que insistentemente me olham como se me cumprimentassem. Dizem em seus felinos olhos que não esqueceram minha cara de tédio, que a transa foi maravilhosa ou que foi um completo desastre. Encaram-me como se julgassem o tamanho de meu pau e a quantidade de pelos que tenho na bunda. Pensam que sabem sobre mim, que a vodca me deixa transparente, que ser solitário não é uma condição minha, que faz parte de meu errante charme.

 

Não repito homens. Não gosto de tê-los duas ou mais vezes deitados sobre minha nudez branca de morto. Sinto vergonha e medo do homem de ontem, sua existência é minha delação.

 

Quando olham para mim, o que procuram? O que pensam ver? Não digo! Não mostro! Preciso ir aonde não me enxerguem, tantos rostos me cansam, todos parecem espelhos, todos me assombram.

 

A sala escura me abraça e só então paro de resistir. Agora somos todos cegos no castelo, fantasmas sem rosto, apenas forma e cheiro. De sentidos atentos, permito que meu tato percorra as paredes, enquanto caminho cautelosamente. Há armadilhas pelo caminho, há doenças venéreas, há mau hálito. Um corpo se põe diante de mim e minha musculatura retesa, pondo-se de prontidão. Uma boca invisível aproxima-se de meus lábios. Escuto seu resfolegar enquanto minha respiração absorve hormônios diluídos em um selvagem e agridoce perfume. Ele não faz a barba há alguns dias e isto torna inevitável que sua boca seja convidada a entrar na minha, enquanto meus dedos correm seus cabelos cacheados e as mãos dele apertam-me a bunda com uma pegada impetuosa. Outra língua lambe minha orelha e me saqueia um gemido. Agora somos três, o que não nos causa constrangimento algum. Não podemos tirar as roupas completamente, despir-se é correr o risco de sair em pelo deste delicioso limbo. Desabotoo minha blusa enquanto meus parceiros erguem suas camisas acima do peito. Baixamos, desastrados, nossas calças até a altura dos joelhos. Dentes sobre um de meus mamilos quase me levam às lágrimas, sinto arrepios eriçarem as células mortas de meu corpo, ressuscitadas de tanto “sim”. O outro engole-me faminto, da glande aos pelos pubianos, sorve-me às pressas seivas genitais, talvez por temer que a consciência e o namorado o surpreendam. Não somos humanos, somos três gemidos, três tecidos nervosos, três amantes que, sob o jugo da claridade, jamais se amariam. Um outro sujeito me lambe a axila e bebe de meu suor e, depois, passa a língua quente e úmida em minha cara. Sua boca tem cheiro de urina, algum cara deve ter mijado dentro dela, mas nada importa. Agora somos quatro, já não me interessam moléstias sexuais ou bocas fétidas, quatro é um número mágico. Sou rendido e atirado ao chão, um deles me curra agressivo, mordo meu lábio inferior e permito que ele continue a me matar, sou comparsa de meu próprio assassinato. Não é a mim que ele pune, por isso aguento satisfeito e obediente o castigo, estou a purificá-lo, a redimi-lo, eu sou a prova de que ele não precisa se sentir inútil e fraco, não no escuro, não agora.

 

Já não sei quantos somos. Sinto uma demente coletividade de bocas sobre minha bunda, a lamber-me o ânus, a ferir-me com vigorosas dentadas as nádegas febris. Meus dedos revezam-se nômades dentre lábios e cus que se confundem em uma massa de fluídos plangentes, empanturro-me da mesma paz que protege de nossa incômoda presença toda gente dita normal. As secreções emergem de todos os lados. Uns gritam, outros choram, alguns riem, todos afetados pela mesma saborosa dor, pelo mesmo suculento desencanto. Nos gozamos bocas, pernas, bundas, costas, barrigas, peitos,  almas. O gozo que recebemos em nossa costumeira escuridão, de repente, transmudado em bálsamo. Seres notívagos, jamais nos veremos uns aos outros. Nós, cúmplices no desespero de existir.

 

Recompostos, saímos pouco a pouco, um a um, a fim de não nos encaramos. Resta-nos nada mais que um segredo, um segredo que se repete no infinito, com pessoas diferentes, que sempre interpretam as mesmas personagens. Nada de mal irá nos acontecer. Estamos protegidos pela ausência de luz. Mais tarde, caminharei dentre os “normais” como se fosse um deles, conversaremos amenidades, riremos juntos, como bons amigos e cristãos. Essas impolutas e imaculadas pessoas não se importam com o que eu faça em meus lugares escuros; contanto que, quando a eles reunido, eu seja educado e comedido. Exigem que eu simule aquilo que eles chamam “integridade moral”, que eu mimetize o deformado (mas luminoso) caráter que vigora em suas vidas.

 

 

Gostaria que as luzes se apagassem para sempre. Talvez imerso em um eterno negrume, eu jamais voltasse a caminhar sobre ovos, a deitar sobre camas-de-prego com o infeliz propósito de entreter aqueles que me hostilizam enquanto sorriem.

 

Emerson Braga 

 

17/12/2014, quarta-feira (originalmente escrito e publicado no Recanto das Letras em 29/11/2013)

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COMO ME TORNEI GAY

 

         Eu não nasci gay. Se nasci, não me lembro de sentir-me assim. Também não me lembro de sentir-me macho convicto. Aliás, quem se lembra do que sentia quando chegou ao mundo? Metade dos desejos resumia-se à vontade de comer; e a outra, à necessidade de cagar. Não sei se eu já engatinhava com “jeitinho” ou se, ao dar meus primeiros passos, rebolei feito uma Lindsay Lohan desastrada e alcoolizada.

 

Putz! Se isso não tem a menor importância hoje, imaginem então em meus primeiros anos de vida!

 

Também não fui uma criança gay. Quando crianças, nos recusamos a ser aquilo que nos ordenam ser (ou que dizem que somos), pois sabemos que podemos ser tudo o que quisermos. Eu achava alguns colegas de sala uns moleques bem lindinhos, queria tocá-los na intimidade do pique esconde na hora do recreio, estreitar minha cadeira a deles nos trabalhos de sala, dividir meu lanche, esperar que eles terminassem de copiar a matéria do quadro a fim de que pudéssemos ir embora juntos, como um casal de namorados. Isso me fazia gay? Esses sonhos de menininho apaixonado por outros garotos? Não. Eu era apenas aquele que estava a descobrir mais sobre si mesmo e sobre os outros; a diferença é que descobri do jeito “torto”, da maneira “errada”, de forma “equivocada”; fiz essa descoberta através dos pueris olhos dos meninos que amei em minha infância. Os adultos diziam que “homem com homem, é lobisomem; mulher com mulher é jacaré”. Já eu... Ah! Eu não me importava! Sempre adorei filmes de terror e uivos ao luar! Eu amava loucamente todos os bonitinhos de minha rua e de minha escola, e aqueles sentimentos eram fabulosos, me transformavam em alguém que realmente sabia que existia. Mas sentir aquilo fazia de mim um gay? Não. Não fazia.

 

         Daí veio a adolescência, e com ela, a pressão familiar. Todos queriam que eu fosse feliz, mas não com quem eu bem entendesse. Para meus pais e tios, era urgente que eu arranjasse uma namorada, clamor que atendi sem muita resistência. Mas o tiro saiu pela culatra. A adolescência fez com que eu descobrisse que o mundo não era feito apenas de meninos deliciosos; que também havia meninas fantásticas! A facilidade de passear entre os sexos, prová-los, experimentá-los sem culpa ou remorso, fez de mim muitas coisas, mas não fez de mim um gay.

 

         Concordo com os radicais religiosos e conservadores quando dizem que ninguém nasce gay, que nos tornamos gays no decorrer de nossas vidas. É verdade. Eu não nasci gay, pois ser gay demanda coragem e sabedoria que só conseguimos com o tempo. Eu me tornei gay através de um demorado e doloroso processo social de autodescoberta, no qual eu tive que escolher entre me tornar gay ou me calar para sempre.

 

Eu me tornei gay para não permitir que me destruíssem a capacidade de sentir, para que não sepultassem, sob toneladas de intolerância, todo o lirismo e poesia de minha sexualidade “fora do convencional”. Tonei-me gay como algumas mulheres se tornam feministas e alguns ecologistas, ativistas. E virar gay foi uma escolha muito bem pensada e necessária para que eu pudesse seguir em frente sem que as pessoas fizessem de conta que eu não existia. Ser gay era uma opção, sim. E eu a escolhi para que minha sexualidade deixasse de ser tratada como um incômodo social e ganhasse status de realidade que não aceita ser ignorada. O rótulo transmudado em identidade.

 

         Se eu não tivesse escolhido ser gay, eu ainda seria invisível. Viveria minha vida dentre quatro paredes sólidas, revestidas de vergonha e culpa, transando com centenas de homens também inexistentes; tudo isso para não abalar a “ordem natural das coisas”.

 

Ser gay não está em meu código genético ou em minha alma; está em minha ideologia, em minha luta cotidiana por dias melhores. Assumir-me gay, enxergar-me gay, dizer-me gay, deu voz ao menino que tentaram matar ainda lá no começo, em minha infância. Mas resisti bravamente, pois, afinal, o Luís Gustavo era lindo demais; meu amor por sua risada de olhinhos cerrados influenciava-me mais que a reprovação daquele bando de adultos infelizes e de sexos pré-moldados.

 

         Ter me tornado gay foi a atitude mais sensata que já tomei em minha vida, pois me deu consciência e também um propósito. Ser gay me trouxe de volta a liberdade infantil de poder ser muitas coisas. Ser gay não é algo que carrego em minhas fantasias, mas em minha sobriedade. É meu partido, é minha bandeira, e também o que, felizmente, me mantém enlouquecido em um mundo que desde cedo tentou contaminar-me com sua esterilizante lucidez.

 

         Ser gay não é meu sexo, é meu nexo. Não é algo que faço, é algo que sou. E de que me orgulho. Muito.

 

Emerson Braga

16/12/2014, terça-feira

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A MEU PAI

 

                    (Escrevi esse texto em 01/03/2012, depois que meu pai passou por um delicado processo cirúrgico, que foi seguido de algumas complicações pós-operatórias. Hoje, graças aos médicos que dele cuidaram e do carinho de seus amigos e familiares, ele se encontra gozando de plena saúde, apesar de seus muito bem vividos 83 anos de idade)

 

Pai;

O senhor sabe o que é ter medo, medo de verdade? Eu sei. Durante boa parte de minha vida, tive medo que você me batesse, me castigasse ou não me aprovasse. Tive medo que seu amor me fosse negado, que o senhor não me protegesse do mundo, que eu não pudesse mais viver sob seu teto. Tive medo que você tivesse vergonha de mim, que eu te decepcionasse, que desejasse ter dado a vida a outro filho que não fosse eu.

 

         Todavia, de todos os medos que já senti na vida, pai, talvez o maior deles tenha sido o de que você sofresse, não só através de mim ou de qualquer outra pessoa, mas através da dor. Hospitais sempre me deram um medo abominável, mas, encontrá-lo no leito de um deles me amedrontou ainda mais. As bolsas de soro, as seringas, as enfermeiras sonâmbulas, a sonda que auxiliava em teu tratamento e que, mesmo assim, me preenchia de receio e pavor... Medo! Medo! Medo! Eu tive tanto medo, pai. Por ti. Por mim. Tanto medo.

 

         Mas eu não sou de subjugar-me facilmente... Ai, isto eu aprendi certamente contigo. Não permiti que o medo me vencesse, me desarmasse. Então permanecemos nós dois ali, o medo e eu, a velar teu inquieto sono enquanto eu descobria uma coisa boa através do temor que eu senti por ti. O senhor é tão forte, pai. Não reclamou, não gemeu, não chorou, mesmo com as marcas do processo cirúrgico que tatuavam os lençóis com dor e sangue. Você foi tão corajoso que acabei por crescer dentro de mim, inspirado em tua vontade de viver, em teu desejo de continuar neste mundo tão feio, porque em teus olhos que não envelhecem, este é o mais belo dos lugares, e é onde o senhor insiste em permanecer com tanto bom humor e integridade.

 

         Após tua alta médica, sonhei com uma lembrança distante de minha infância. Estávamos tu e eu na feira-livre, o senhor sempre com seu passo apressado e eu a esbarrar nas pessoas, pequeno, magro, assustado com a ausência de tua mão que sempre insistiu em nos deixar andar - meus irmãos e eu - com nossos próprios pés. De repente, me perco. Olho para os lados, afoito, inquieto, ai o medo, ai o medo. Então tenho a desesperada ideia de me por de gatinhas, arrisco-me a ser pisoteado e então, para meu alívio, reconheço teus chinelos e teus tornozelos, no meio de tantos pés que jamais me levariam até onde o senhor me levou. E eu cheguei longe, pai. Cheguei exatamente aqui, onde não temo mais ter medo.

 

         E não me interessa mais se sou um bom filho, se o senhor é um bom pai, se fizemos a coisa certa, se nos entendemos ou se nos acostumamos. O que me importa é que estamos juntos e que o tempo que nos resta é um acessório desnecessário à manutenção de nossa amizade.

 

Pai. Meu pai. Não tenha medo. Agora posso te chamar de filho.

 

Emerson Braga

15/12/2014, segunda-feira

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AVESSO

 

Não, não sou. Respondia ela quando a julgavam – nestas constrangedoras e ridículas manifestações de afeto que apenas os adultos conseguem simular – uma menina bonita. Não, não sou. Reclamava. O beicinho torcido, o cenho franzido como as saias que detestava vestir.

 

Não, não era. E ninguém entendia sua negativa, tão clara, tão franca. “Tadinha, acredita-se feia, a pobrezinha”, diziam tomados por uma candura oca, inútil, ao acariciar-lhe a cabeça tomada de raiva por tudo e por todos que se recusavam a enxergar o óbvio, a verdade que estava bem ali, nítida, diante do olhar míope de todos que a achavam uma bela garotinha – mas um tanto estranha, confessavam em segredo.

 

Sim. Tinha um rosto bonito, mas não era bonita. Bonitas são todas as meninas. Já meninos, os meninos são bem parecidos. Ela era um menino e ninguém enxergava. E que menino no mundo inteiro gostaria de ser chamado de bonitinha, de princesinha? Não, não sou. Quase gritava, ameaçando esmurrar as pernas daqueles que tentavam ganhar-lhe a confiança à custa de elogios vazios que a ofendiam, invertiam-lhe abruptamente a sexualidade com a qual ela tanto se identificava, que era sua assinatura no mundo. Apesar de muito jovem, ela sabia, sentia dentro de suas convicções tão íntimas de recém-chegada a este mundo quase por completo etiquetado, que ela não era ela. Não, não sou.

 

E não era. Ele não era uma menina. A falta de um acessório genital feio e desnecessário, a ausência de um penduricalho vulgar e incômodo no meio das pernas, não lhe parecia argumento plausível o suficiente para que o bombardeassem insistentemente com bonecas e fogõezinhos, com vestidos e livros de princesas. Ele queria uma ferida no joelho. Uma ferida grande, de casca grossa e boa de cutucar com a unha suja de terra. Queria ter os cabelos curtos, não suportava os cachos caídos sobre seus ombros que carregavam o peso enorme de forçosamente ser aquela que não era. Não, não sou.

 

Seu nome de batismo era Rafaela. Achava um bonito nome, mas aquela letra "a" encerrando a palavra que deveria defini-la, não passava de uma vogal equivocada, que contribua para toda a confusão que faziam acerca de quem realmente era. Rafael. Gostava assim, de ser chamado Rafael. Rafael era mais apropriado, não permitia os tão incômodos e rotineiros equívocos que tanto o chateavam.

 

No colégio riam dele, chamavam-no de sapatona. Aos oito anos de idade, não deveríamos ouvir coisas tão cruéis. Mas Rafael não entendia aquilo como agressão, tomava por engano. Para que alguém seja sapatona, é necessário partir-se da premissa de que este alguém se trata de um ser humano do sexo feminino. Mas Rafael não era uma menina. Não, não sou.

 

Também não recebia carinho de seus pais, que jamais lhe deram de presente uma bola, um caminhão de bombeiro. Jamais o levaram para a escola fantasiado de zorro. Sempre aquela vergonhosa roupinha de princesa, os mesmos ursinhos de pelúcia que só serviam para ser destroçados e queimados. Das bonecas, até gostava um pouco, pois, nas brincadeiras, sempre representava o pai amoroso e responsável, o homem da casa.

 

Hoje, Rafael está fazendo nove anos de idade e seus pais deram-lhe uma grande festa, com uma bela mesa que imita uma floresta, tendo no alto de uma colina de papel machê um lindo castelo de isopor. Rafael não quer abrir seus presentes, sabe que dentro destas caixas coloridas, destes pacotes embrulhados com papéis dourados e fitas de cetim, não há coisa alguma capaz de deixá-lo contente. A festa é inútil, pois trata-se do aniversário da outra, daquela que chamam Rafaela, a menina que pensam ser ele.

 

Envergonhado, vestido em uma fantasia de Gata Borralheira, Rafael enfia-se sob a mesa e põe-se a esmagar crânios de formigas com um palito de picolé. Enquanto as outras meninas são treinadas no jardim para se tornarem esposas servis e mães opressoras, Rafael brinca sozinho. Com os olhos vermelhos de raiva, repete incessantemente diante dos cadáveres das pequenas rafaelas decapitadas:

 

 

Não, não sou.

 

Emerson Braga

12/12/2014

 

Texto originalmente publicado no livro EXEMPLOS: AMORES, DESAFETOS E OUTROS DESPAUTÉRIOS ACERCA DE EROS, lançado pelo selo Scenarium Plural. 

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PERVERSÃO

 

         Ontem sonhei que Jair me estuprava. Sim, em meu sonho, eu era merecedor de sua curra brutal.

 

         Os botões dourados de sua farda, as medalhas exibidas sobre o robusto peito esquerdo, os coturnos reluzentes. Jair todo esplêndido, todo fálico, ameaçava-me com sua vigorosa baioneta; enquanto eu gemia de tesão por sua macheza sólida, bélica.

 

         Antes de enfiar-me o membro, teso de ufanismo, Jair estrangulou meu pescoço e enfiou minha cabeça em uma tina de água fria. Xingou-me de veado, de bicha comunista; pressionou minhas costelas com seu joelho cristão e, com a outra mão, bateu com o quepe contra minhas nádegas vermelhas, socialistas. Em seguida, pendurou-me em um pau de arara e aplicou-me choques elétricos nos testículos, enquanto ouvia a Hora do Brasil.

 

         “Confessa, confessa”, gemia Jair. Sua boca salivosa e colada a meu ouvido quase mouco – aleijado por generosas mãozadas – roçava em minha orelha ferida. A proximidade da morte, o aflitivo fetiche, a humilhante condição de capacho na qual meu corpo se encontrava... Tudo era pólvora, tiro, petardos.

 

         Membro ereto, estandarte viril da moral e dos bons costumes, Jair avançou sobre minha incapacidade de resistir a seus encantos de sádico general romano, talhado na própria megalomania e medo da escuridão que abriga suas inconfessáveis taras de dedicado pai de família. Engoli o grito, o que catapultou sua selvageria.

 

 

         Uma, duas, três estocadas... Jair me penetrou com a caricata violência dos ditos abusadores sexuais. “Você merece, veadinho, você merece, mulherzinha”, gritava ele, marcial, encovado sobre o corpo que comia feroz (apesar de julgá-lo repulsivo). Precocemente, o sangue jorrou verde; o sêmen, amarelo. O gozo autoritário emergiu da dor subversiva. O hino nacional ecoou em meus tímpanos, enquanto uma bancada de conservadores urrava de satisfação: “Gol! Gol! Gol do Jair!”

 

         Sem olhar-me na cara, Jair empurrou meu corpo ferido e nu para dentro de uma vala comum. Lá, estreitei-me ao cadáver de Vladimir Herzog, enquanto meu abusador atirava pás de cal sobre nossas caras mortas.

 

 

         Arrancado de meu voluptuoso sonho pelo toque estridente do telefone, acordei sobressaltado, o lençol marcado por inevitável polução noturna.

 

 

         – Silas, acabei de ter um sonho maravilhoso contigo! – disse Jair, do outro lado da linha.

 

         – Duvido que tenha sido melhor que o meu – comemorei, com um sorriso evangélico – Em meu sonho, o Herzog estava realmente morto.

 

 

Emerson Braga

11/12/2014, quinta-feira

         

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LÁ DO ALTO DEVE SER BONITO

 

Um menino pra ser feliz tem que ser o diabo, pés no chão.

 

Naquele sábado, a criançada corria descalça no meio da rua enquanto o menino tomava às pressas um substancioso copo de abacatada. Tinha certeza de que apenas sairia para brincar caso não restasse sobre sua boca suja de palavrões e risadas cavilosas sequer o bigodinho esverdeado.

 

 

– Pronto, mãe, terminei – disse. Os olhos pidões e de um luminoso castanho, apressados, pareciam já ter alcançado a rua, enquanto o restante do corpo aguardava obediente pelo consentimento materno.

 

 

– Volta antes do almoço se quiser ganhar uma cocada – advertiu a mãe sem muita firmeza ou convicção naquilo que dizia, daria o doce de um jeito ou de outro, pois jamais fora boa em castigos. Quanto aos bolos, não sabia aplicá-los, mas fazê-los. Era uma dessas mulheres que qualquer criança sonha ter como mãe, toda cheirosa a sabão e açúcar.

 

 

Ele era o mais baixinho de sua turma. De pernas ágeis e joelhos perebentos, não se deixava intimidar pela estatura tão mais avantajada de seus colegas de traquinagem e pirraça. Saber alguns palavrões cabeludos havia lhe conferido certo respeito no meio da molecada e, mesmo assim, alguns arengueiros ainda se metiam com ele. Não que o detestassem; na verdade, era querido. Mas, quem nesta vida é menor que os outros, desde pequeno experimenta muitas e constantes injustiças.

 

Sentado entre Zonzo e Piroca, contemplou o céu e observou o lancear das arraias de julho. Uma delas era um belo paquetão rubro-negro, robusto e de rabo feito de tiras de pano amarelas. Serpenteava como imponente apêndice de magnífico ser voador tingindo de sangue, luto e ouro o imaculado azul do céu. A outra pipa não era tão grande, mas rivalizava com sua oponente pela multicolorida beleza dos papéis de seda que lhe conferiam um aspecto maravilhoso de pássaro mitológico, sua cauda majestosa chicoteava no ar lindamente, rabiscando cor e movimento no invisível.

 

 

Zonzo apostou em uma das arraias e Piroca parecia não ter dúvidas de que a outra, bem maior, ganharia aquele duelo. As linhas que empinavam as pipas estavam devidamente besuntadas de cerol. Disputavam o firmamento dois capoeiras planadores, ameaçando-se mutuamente com seus afiados instrumentos de ataque.

 

Enquanto os amigos contavam improváveis histórias de motoqueiros decapitados pela mortal linha coberta de massa vítrea, o menino mantinha os olhos atentos nas encantadoras adversárias celestes e sonhava que, antes do almoço, retornaria para casa com uma daquelas criaturas aladas. Se conseguisse pegar a arraia derrotada quando ela bolasse – após ter sua linha partida pelo barbante inimigo –, ganharia o respeito de toda a pivetada da rua. Também teria um brinquedo para chamar de “meu”, um que não tivesse que dividir com o irmão caçula por ter sido comprado por sua mãe, que tudo compartilhava.

 

 

– Macho, deve ser massa demais voar – suspirou ele muito sinceramente, arrancando risadas dos amigos que o tinham na condição de mascote. Não deu cabimento à troça gaiteira e manteve-se vigilante, atento. Em poucos minutos, seria eleito o maioral, o danadão. “Depois de hoje, não fico mais de time de fora quando a gente for brincar de travinha”, calculou muito cheio de si.

 

 

A linha da pipa arco-íris não suportou o afiado roça-roça e a arraia desfaleceu com a deselegância de uma sereia bêbada que mergulha em busca do profundo azul do mar. Carregada pelo vento, debandou para os lados do chafariz, sendo prontamente seguida pela meninada endiabrada. Todos de olhos fixos no céu, muitos foram os tropeços, topadas e esbarrões, o que diminuiu sensivelmente a quantidade de candidatos a novo proprietário da bela pipa. “É minha, é minha”, berravam os que ainda corriam, ansiosos de que o prêmio não ficasse preso em um poste ou árvore, possibilitando o resgate somente aos meninos mais velhos, arteiros e habilidosos.

 

A freada brusca resultou em uma cantada de pneus seguida de uma nuvem fedida de fumaça. Porém, a destreza do motorista não fora suficiente para evitar o doloroso impacto. Arremessado a uma altura de sete, oito metros, o pequeno lanceou no ar como um Ícaro de papel de seda e caiu junto ao meio fio, sob o olhar incrédulo de seus amigos, os melhores em pegar bigu na traseira dos ônibus, seus dois heróis.

 

 

Piroca, quase sem fôlego, depositou a pipa sobre o peito inerte do coleguinha. Sabia que, como o Naldo Traficante e a Zilma Mongoloide, seu amigo estava morto. Morrera por aquela pipa, era justo que ficasse com ela. Carinhosamente, limpou das narinas da impúbere vítima o catarro misturado a sangue e, com a outra mão, ajeitou os cabelos desgrenhados e sebosos.

 

– Cadê meu filho? Cadê meu menino? – gritou uma senhora que tentava vencer a multidão. “Mãe sempre sabe”, é o que dizem, não é?

 

Antes que a mulher tivesse a infelicidade de ter em seus braços o corpo sem vida de seu único filho, Zonzo abraçou-se àquela despedaçada mãe e falou, enquanto chorava e ria:

 

– Tia, o Boqueira voou! Não chore, não chore... A senhora perdeu. Aquilo foi lindo.

 

Emerson Braga

11/12/2014, quinta-feira

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3ª CARTA – DESAFIOS DOS ESCRITORES – CARTAS RUSSAS

 

Anton Tchecov, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos.Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sidos aclamados por escritores e críticos. Tchecov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas ele escreve a respeito: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante."

 

Inspirado por esta declaração, escrevi no Desafio dos Escritores - CARTAS RUSSAS, o texto epistolar que segue.

 

17 de outubro de 1898

São Petersburgo, CCCP

 

 

Caro esposo;

 

Confesso: Não sei como iniciar esta carta. Tenho a cabeça repleta de fastios e um pouco encharcada pelo efeito da taça do vinho almiscarado que pende dentre meus trêmulos dedos; enquanto a outra mão deseja escrever-te como se fosse teu mais profundo desejo receber notícias minhas. Estou indisposta, mas não pretendo exagerar os sintomas que, deveras, sinto. Uma apatia, uma onda de calor que me deixa a face enrubescida, talvez mais vertigens do que precise sentir uma mulher olvidada por seu senhor. Não, não quero preocupar-te. Teu intelecto possui ocupações demais, não quero enervar-te com as miudezas de minha alma ou pesares de minha falta de vigor físico.

 

Não creio que me aches feia ou desinteressante, Anton. Percebo que ainda me queres como no dia em que me desposaste. Éramos tão belos e tão jovens. Tu, um médico recém-formado; eu, a musa inspiradora de teus elixires e bisturis. Em que época de nossas vidas eu me transformei em mera espectadora de teus deslizes, marido? Que desgraçada tornei-me. Poderia eu ter contraído matrimônio com um homem de carne e osso, mas acabei levada pelos ardis de minhas emoções e troquei alianças com esta interrogação metafísica chamada Tchekhov.

 

O começo de nossas vidas foi tortuoso, tínhamos escassez de dinheiro e fartura de débitos. E tu, corajosamente, insistias em atender os desvalidos sem cobrar-lhes os rublos que eles não possuíam, como fazem teus colegas de profissão. Admira-me que este homem, capaz de gestos de altruísmo que ribombam nas abóbadas celestes, seja o mesmo que me reduziu a quase nada. Há dias que mal como ou durmo, debruçada sobre cartas que não sei escrever. Sinto-me fraca e a solidão há de asfixiar-me caso não venhas a meu encontro suplicar pelo perdão que te ofertarei sem improfícuas cerimônias.

 

Recebi das mãos do senhor Mikhail Menchikov uma cópia de teu conto, Ionich. Que tédio! Que maçada! Já disse que não aprecio tuas narrativas. O que fazem teus amigos? Riem de mim? São eles uns tolos soberbos que se julgam deuses pelo poder de suas penas! Um deus eras tu, senhor, quando auscultava teus pacientes, antes de viver às voltas com fábulas e metáforas. Amaina-te que não usei de aspereza com o teu companheiro, pois bem sei que ele não frequenta a esbórnia que os escritores promovem naquele bordel que Literatura, tua escandalosa amante, chama de casa. Não sabes como me sofrem os dedos pelo simples gesto de escrever o nome daquela detestável mulher.

 

Desculpe-me os rompantes. Logo eu, que sempre fui clínica e metódica, a esbravejar como uma doidivanas. É a febre, meio que ando temerária. Mas, avia, esquece-me. Como estás de saúde? Tiveste aquela hemorragia nos pulmões, pioraste muito após a morte de teu pai. Espero que os ares de Ialta estejam a cuidar de ti como eu faria, bem sabes como tua saúde sempre me foi mais cara que teu afeto. Como estão as árvores que plantaste? E os cães, ainda muito ariscos? Conta-me também de tua mãe e tua irmã, ainda ralham muito com o senhor Gorki? Não quero que satisfaças estas minhas curiosidadezinhas através de cartas ou telegramas, prefiro que venhas a São Petersburgo visitar-me. Bastar-me-á pedires com atenção e carinho que eu parta contigo e estaremos em Ialta antes que as criadas deixem a camarinha a meu gosto. Mas apenas viajes a fim de buscar-me se tiveres condições de fazê-lo, afinal, não gostaria de agravar-te os males respiratórios que te enfermam.

 

Anton, percebo em todas as cartas que me envias, o respeito e a consideração que nutres por mim. Mas não compreendo a razão pela qual nenhuma delas convida-me para o aconchego de tua presença. Sinto-me como se fosses casado com a outra e não comigo. Então é assim? Literatura, a dama dos saraus que te combalem, é tua nova senhora? E eu, o que sou? Por acaso, uma morta? Será que não sirvo mais para nada? Logo eu, que salvei vidas a teu lado? Lavei escaras, sarjei pústulas. Não enviuvaste, Anton! Sou a senhora dos unguentos que te curam, dedicada, paciente e secular em minha existência, esposo. Tua concubina não passa de uma debutante tresloucada e repleta de demências.

 

Como podes jurar que me amarás pelo resto de teus dias, que sempre serei tua mulher, enquanto manténs tu a amante sob os bordados e franzidos da colcha de nossa cama, a ladra que transformou o meu Dr. Tchekhov em um inconsequente contador de histórias? Tua letra, antes sóbria, a elaborar bulas e receitas medicamentosas, agora se entrega ensandecida às frivolidades da criação. Quando estás a escrever, marido, torna-te um autômato despido de consciência e vontade.

 

Não entendo, senhor. És um homem da razão e das ciências, em tua fronte reluz o esplendor da sensatez. Por que te entregaste aos caprichos daquela prostituta, daquela puta de Camões? Literatura não passa de uma lésbica a deitar-se lépida e a dizer motejos dentre os seios de Jane Austen, sujos de ironia e tinta negra. Meretriz! Maldita mulher-dama deste inferno chamado prosa e poesia! Amaldiçoo o dia, Anton, em que tua alma fora tocada pelas letras.  

 

Não percebes? Nasceste com o propósito de orquestrar-me, a mim, que sou uma mulher realista e pragmática; e não com o fim de entregar-te à pândega e estroinice para as quais Literatura te arrasta, com um simples aceno libidinoso e sensual. Mulher vil! Ardilosa! Mefistofélica! Se não te decidires por mim, Anton, a solidão há de consumir-te. Hei de ver-te apodrecer sobre mil papéis em branco ao lado do corpo nu de tua hiperbólica amásia.

 

Ai, marido! Não quero estar sozinha. Prometeste zelar por mim sob a benção de Deus. Tens a esposa perfeita, Anton, que cuida de ti e de teus enfermos, que não possui companhias extravagantes capazes de corrompê-la com frivolidades. Ou seriam Dança e Música, aquelas rameiras amigas de Literatura, mais decentes que eu? Por que preferes a companhia desta mulher que te deixa doente, alienado e insano, Anton? Pensas que não falam de ti, sempre às voltas com estas malditas peças, estes detestáveis livros de Turgueniev e Goncharov, a devorar estes mortos? Todos sabem de tua infidelidade, maldito e amado senhor. Todos sabem que te deitas com cadáveres literários e personas imaginárias.

 

Alcanças o que apressou minha partida para São Petersburgo, Anton, além de teu mau passo? Sempre que eu saía à rua e atravessava a praça de Ialta repleta de casais enamorados, um rapaz galhofeiro apontava-me e gritava trocista: Segue solitária a mulher do médico, enquanto o doutor Tchekhov leva seus doentes ao teatro e não ao ambulatório. Riem de ti, desgraçado marido!

 

Perdoa-me. É Literatura. É a febre.

 

Sei que ela aguarda-te em Taganrog e que tu pretendes encontrá-la assim que melhorares dos pulmões. Trocaste-me por sonetos e contos de escárnio, Anton. Substituíste-me por uma amante bêbada. Mas ainda há esperança. São Petersburgo ou Taganrog, marido? São Petersburgo ou Tangarog, esposo? Tiveste uma infelicidade em São Petersburgo com tua peça A Gaivota. Não faça com que agora eu tenha a minha, senhor.

 

P.S.: Nunca mais repita que escrevo como uma poetisa. Literatura talvez aprecie esses gracejos. Eu não.

 

Sua esposa, Medicina.

 

 

Emerson Braga

21/11/2014, sexta-feira

 

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MANUAL PRÁTICO DO PROPRIETÁRIO DA MULHER OBJETO

 

Prezado cliente;

 

Você acaba de adquirir um produto barato e de fácil manipulação. Todavia, a fim de que realmente possa usufruí-lo de maneira plena, disponibilizamos este pequeno manual para que seu produto seja utilizado adequadamente e não venha a apresentar problemas durante sua vida útil.

 

 

Ao tirar a Mulher Objeto da caixa, certifique-se de que ela não foi violada. A integridade do produto garantirá melhor desempenho do mesmo em suas reuniões sociais.

 

 

Antes de começar a brincar com a Mulher Objeto, é preciso dar-lhe corda. Apresente-se gentilmente, seja cortês e carinhoso. Revelar-se romântico, atencioso e interessado por ela ajudará no perfeito funcionamento do bem que você acabou de adquirir. Nos primeiros meses de uso, trate-a com cuidado e delicadeza. Isso garantirá, inicialmente, que o produto não se quebre com facilidade.

 

Pronto! Agora você já pode levar a Mulher Objeto para sua casa! Com o produto em sua posse definitiva, aqueles cuidados iniciais podem ser postos de lado. Afinal, ela já lhe pertence e você pode fazer com ela o que bem entender, não é mesmo?

 

 

Divirta-se controlando as roupas e as companhias da Mulher Objeto, como também dará boas gargalhadas ao impedir que ela estude ou trabalhe. É de vital importância que seu brinquedo exista apenas para o lar!

 

Observação importante: NÃO NOS RESPONSABILIZAREMOS POR MAU FUNCIONAMENTO DO PRODUTO CASO SEU USUÁRIO PERMITA QUE A MULHER OBJETO SE TORNE INDEPENDENTE.

 

 

Se o produto oferecer dificuldade em desempenhar funções básicas, como ficar calada e aceitar suas muitas traições, o problema poderá ser temporariamente corrigido com gritos e humilhações rotineiras. É importante que, logo após esses procedimentos, você peça desculpas e diga que as infidelidades não acontecerão mais. Em último caso, apele para as crianças. Deste modo, você poderá garantir ainda muitos anos de comida feita, casa arrumada e roupa lavada.

 

Tenha instantes de puro sadismo com sua Mulher Objeto. Tapas, pontapés, empurrões e esganaduras podem render momentos únicos de descontração depois de um dia cansativo de trabalho. Quanto mais culpa você atribuir à sua Mulher Objeto pelo fracasso de sua família, mais submissa e sujeita às suas agressões ela se tornará, o que poderá acarretar diminuição do grau de satisfação do cliente.

 

 

Terminada a vida útil da Mulher Objeto, caso ela não cometa suicídio ou venha a morrer em virtude dos constantes espancamentos, você poderá substituí-la por um novo modelo. Não aceitamos a devolução do antigo exemplar, que poderá ser descartado na rua ou na casa de familiares e/ou amigos.

 

 

Seus colegas morrerão de inveja! E não se esqueça de que, quando você se alcooliza, a brincadeira fica ainda melhor!

 

Mulher Objeto. Adquira logo a sua antes que elas desapareçam das prateleiras.

Produto indicado para homens inseguros, ignorantes, misóginos, cruéis e incapazes de aceitar a igualdade entre os gêneros.

 

 

Seu uso prolongado, de maneira irresponsável, poderá eventualmente causar sua prisão. Quanto a isso, não há garantias.

 

Emerson Braga

 

 

20/11/2014, quinta-feira

 

 

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TODO MUNDO PODE SER FABULOSO!

 

Sabe, há semanas venho tentando desenvolver algo bacana para escrever sobre o dia das crianças. Desde o início do projeto, decidi que eu abordaria um tema que fosse além das fotos fofas – ou constrangedoras – de nossa própria infância, exaustivamente publicadas em redes sociais.  

Pensei nisso, pensei naquilo, quase desisti. Daí, assim do nada, me veio a ideia de homenagear a página CRIANÇA VIADA – BORN TO ARRAZAR, desenvolvida por Iran Giusti. Se você está lendo esse texto, é porque o próprio Iran permitiu sua publicação e de algumas fotos expostas em seu website. 

Bem, para quem não conhece, o CRIANÇA VIADA é uma página criada em 2012, na qual heterossexuais desencanados e homossexuais assumidos de ambos os sexos enviam fotos de quando eram crianças e autorizam a publicação das mesmas na home page. A única exigência de seu moderador é que seja “aquela foto”, repleta de atitude e liberdade de expressão, desde a mais tenra infância. São cliques cheios de graça, espontaneidade e inocência; o que inviabiliza a ideia absurda de que a sexualidade humana é uma opção ou que determinados padrões comportamentais na infância sugerem esta ou aquela orientação sexual. Não se trata de como falamos ou agimos, mas de quem somos. Todos nós.  

A página já sofreu muitos ataques e perseguições por parte daqueles que não compreendem sua real proposta; são acusações feitas por pessoas incapazes de perceber a importância social desse despretensioso projeto que apresenta a homossexualidade – com bom humor e leveza – como parte da vida do indivíduo, e não como hábito adquirido.  

Contra todos os rótulos sexistas, que impões padrões de comportamento para os gêneros masculino e feminino, as crianças posam para as fotos sem vergonha alguma de ser diferente da maioria dos meninos ou meninas. Radiantes, repletas de amor próprio e vitalidade; deixam-se fotografar como realmente são: pessoas fabulosas! Criaturinhas que ainda não tinham muita noção da barra que enfrentariam pela frente: todo o preconceito, violência e discriminação vigentes em nossa sociedade hipócrita e intolerante; que não poupa sequer menores de idade que não se enquadram no padrão estabelecido.  

Apenas quem foi uma criança viada sabe pelo que teve que passar para não perder o brilho e a alegria de viver. Tornar-se adulto, para cada um de nós, não foi nenhuma brincadeira, trata-se de uma luta cotidiana e na qual a maioria dos homossexuais e heteros de mente aberta precisa aprender a resistir sozinhos desde cedo. E, muitas vezes, somos reprimidos e castigados por aqueles que deveriam ser os primeiros a defender o direito de sermos quem somos: nossos pais. 

O que muitos adultos que decidem constituir família parecem não perceber é que as crianças não são frutos de seus desejos pessoais; mas criaturas individuais, com natureza, inclinações e gostos particulares. Julgar, maltratar ou rejeitar um filho por ser diferente é admitir a própria incapacidade de educar um ser humano. Se você não gosta dos trejeitos de seu filho, o problema é com você e não com ele.  

Em sua página, Iran Giusti deu um novo sentido à palavra “viado”. Transformou um vocábulo que simboliza homofobia e rejeição em um adjetivo carinhoso, despido da raiva injustificada e sadismo embutidos na voz de quem nos xinga nas ruas de nosso país, como se fugir à regra fosse o mais abominável dos crimes; quando, na verdade, é a diversidade que nos torna uma espécie única e bela.  

Como já dizia Caetano Veloso, “Gente é pra brilhar”. Portanto, independente de nossas sexualidades, sejamos papais viados e mamães viadas; não no sentido pejorativo, mas no de sermos livres para amar nossos rebentos exatamente como eles vieram ao mundo.  

Não tenham vergonha de seus filhos! Eles precisam de sua proteção e acolhida, precisam saber que são fabulosos não pelo que vocês queriam que eles fossem, mas pelo que eles são.

 

Emerson Braga 

Segue o link da página CRIANÇA VIADA:  

http://criancaviada.tumblr.com/

12/08/2014, domingo

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DA VERGONHA DE TER MEDO

 

No dia 12 de agosto deste ano – dia no qual completei 38 anos de uma vida tranquila da qual gosto – deparei-me em uma parada de ônibus com meus próprios preconceitos e fantasmas. Daí, ao constatar que eu ignorava algumas importantes variáveis, tive que refazer o balanço que até então eu tinha de meu papel no mundo.

            Era noite e eu voltava do cursinho. O bairro da Serrinha não é um dos mais seguros de Fortaleza e, às dez horas da noite, é bom que se tenha cuidado em qualquer lugar da Cidade Luz.

Antes de chegar à parada de ônibus avistei dois garotos negros sentados sob a marquise. Constatei que eles haviam ficado em estado de alerta desde que haviam percebido minha proximidade. “São ladrões”, pensei. “Dois adolescentes pobres, negros, à noite, em uma parada de ônibus deserta é assalto”. Cauteloso, preferi ficar uns dois metros distante da parada de ônibus. Um dos garotos tinha um curativo sob o queixo e o outro o olhar de quem parecia ter sido ferido e magoado por muito tempo. Pensei em sair dali para um lugar mais movimentado e iluminado, mas então cogitei que o movimento de fuga os convenceria de que eu era uma vítima fácil e que esboçaria pouca ou nenhuma reação. Permaneci parado, cara amarrada, braços cruzados, mirando a direção da qual meu ônibus viria e que, naquela noite, parecia demorar uma eternidade.

            _ Se o senhor quiser a gente sai daqui. – Disse o menino com o esparadrapo no queixo. Sua voz era nasalada, afetada, quase feminina. Só então percebi que ele estava tão assustado quanto eu.

            _ Por que eu iria querer que vocês saíssem? – minha pergunta tentou negar o desejo que realmente existia.

            Os dois se entreolharam como se confabulassem, discutissem por meio de uma linguagem íntima e silenciosa se eu era digno de confiança. Depois de alguns segundos, o mais desinibido voltou-se para mim e esclareceu sua proposta:

            _ É que o senhor é branco, tá bem vestido (eu estava de bermuda, tênis e blusa polo) e é hetero. Tá vendo isso aqui no meu queixo? Foi um homem igual ao senhor que fez isso comigo, só porque eu sou gay...

            Gelei de vergonha por parecer branco, bem vestido e heterossexual. Não qualquer heterossexual, mas aquele tipo que os dois temiam. Gelei de vergonha por ter acreditado que o fato daqueles meninos serem pobres e negros era evidência suficiente para que eu os julgasse como bestas homicidas, que iriam me matar a fim de roubar meus caros acessórios. Eu quase por completo – desde o cheiro em meu corpo ao clareamento em meus dentes – coberto de uma coisa que eu acreditava até então me deixar belo, interessante, atraente, mas que naquele instante apenas serviu para que eu tomasse de assalto a segurança de dois meninos que temiam ser covardemente espancados por mim.

Um incômodo talvez ainda maior que o medo de ser roubado tomou conta de meus pensamentos e uma das muitas vozes de minha consciência ordenou que eu tentasse reparar meus preconceitos, gritou-me que não haveria momento melhor que aquele.

            _ Eu não sou heterossexual. – disse eu, simplesmente, a fim de com eles estabelecer um elo. Pela primeira vez em minha vida desde que abandonei meu castrador armário, pareceu-me difícil dizer aquilo, a declaração soou falsa, artificial. Talvez porque naquele instante eu encarnasse a figura do branco de classe média agressor de homossexuais negros e pobres. Não sei. Por mais que eu me esforçasse, pareceu-me impossível livrar-me do sentimento de que eu realmente parecia ameaçador, e isto me causou uma sensação perturbadora.

            _ O senhor? Gay? Não parece não... – debochou com um sorrisinho malicioso no rosto o menino de queixo ferido – Mas se o senhor tá dizendo, vou fazer de conta que acredito. Olha, meu nome é Eduardo, mas a minha galera só me chama de Duda. Esse aqui é o Aurélio. Ele tá triste porque o namorado tem vergonha dele e só quer dinheiro o tempo todo.

            Pedi para sentar-me com eles e começamos a conversar sobre as razões da tristeza de Aurélio, que tinha uma atitude e um semblante completamente avessos aos de Duda que, na medida em que ficávamos à vontade, se revelava ainda mais esfuziante e tagarela. Gostei de pensar que não éramos assim tão diferentes. Acreditei por um instante que se nos despíssemos de nossas roupas, tons de pele e códigos sociais, nos reconheceríamos em nossas esperanças e angústias, nos identificaríamos ao ponto de saber exatamente o que dizer um ao outro.

Esboçando uma maturidade quase caricata de tio “entendido”, falei de minhas experiências amorosas infelizes e o que fiz para superá-las. Enquanto Duda bebia do que eu dizia com sincero interesse, Aurélio me ignorava com o enfado de quem não confia mais nas palavras dos heterossexuais brancos e bem vestidos. Talvez realmente fôssemos de mundos diferentes, e esta ideia me exasperava.

            _ Se o senhor não tivesse namorado, eu ia propor um negócio. – falou Duda, em determinada altura da conversa, com um olhar de “Engraçadinha” e um sorriso de “Talentoso Ripley”.

            _ E o que seria? – quis saber eu, apesar de já prever o que ele diria.

            Fingindo uma timidez que não lhe era própria, Duda revelou:

            _ A gente tá aqui esperando um homem. Não sei mais se ele vem, tá demorando muito. De vez em quando a gente sai com ele. Será que ele já passou por aqui, viu a gente conversando com o senhor e desistiu? – preocupou-se Duda, voltando-se para um cabisbaixo e indiferente Aurélio.

            Senti uma tristeza medonha por eles e uma raiva desmedida daquele que os molestava com frequência, aproveitando-se da miséria e da juventude maltratada daqueles dois perdidos em uma noite que poderia feri-los ainda mais. Pedi que não fizessem aquilo, que fossem para casa, pois já era tarde e moravam em um bairro distante. Duda balançou a cabeça rejeitando o que eu dizia e falou que ambos namoravam dois adolescentes viciados e que apanhariam feio caso retornassem ao Conjunto Ceará sem o dinheiro necessário para que seus jovens amantes pudessem comprar pedras de crack.

            _ Ele vai me bater de qualquer jeito mesmo. – ouvi pela primeira vez a voz de Aurélio, e aquele som me quebrou por dentro. Era o som de quem, mesmo que ainda tão moço, já havia desistido de muitas coisas.

            Tinham passado alguns ônibus desde o início de nossa conversa. Talvez aquele que se aproximou quase vazio fosse o último. Levantei-me e mais uma vez pedi que eles fossem embora, mas Duda fez um gesto de desdém e Aurélio parecia inclinado a acompanhá-lo até o fim do mundo. Embarquei no coletivo certo de que jamais voltaremos a nos ver, então permiti que eu sentisse saudades ainda ali, alguns segundos depois de deixá-los.

Ao chegar a casa, meus irmãos, mãe e namorado me aguardavam em virtude de meu aniversário. Apesar de estar na companhia de pessoas que me amam e que zelam por mim, não consegui me sentir seguro, acolhido ou querido. Não ousei me sentir bem enquanto Duda e Aurélio permaneciam lá fora, quase meia-noite, à espera do dinheiro que não indenizaria o abuso que, novamente, sofreriam. Não me atrevi.

Desde aquele dia procuro tomar mais cuidado ao olhar para as pessoas. É preciso sensibilidade, acuidade e disponibilidade para que não julguemos os outros baseados apenas em nossos preconceitos e limitada percepção da realidade. Aurélio e Duda não eram assustadores, são tão humanos quanto qualquer um de nós. A única coisa que nos torna diferentes é o fato de suas histórias terem sido mutiladas por pessoas cruéis, enquanto a minha é cotidianamente costurada por aqueles que me amam e respeitam.

Ainda me dói não saber onde eles estão e se estão bem. Como desejei naquela noite que aqueles dois meninos encontrassem não só o caminho de casa, mas o caminho.

 

 19/08/2014, terça-feira

 

 

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DE QUANTOS GIGABYTES É SUA INFÂNCIA?

 

Hoje acordei com saudades dos tempos de menino, de quando eu corria com os deveres de casa a fim de ser liberado para me encontrar com meus amigos: Magda, Marden, Lelê, Alexandre, Arley, Júnior, André, Bauzinho, Neto, Michel, Gardênia, Gil, Cacá, Liduína, Fabrício... Alguns ainda permanecem em minha vida, mas a grande maioria, inevitavelmente, quebrou a promessa que juntos fizemos de jamais crescer e seguiram com suas vidas.

Todos tínhamos em média 10 anos de idade quando decidimos fundar o Grupo Arco-Íris (nada a ver com bandeiras LGBTTT, apesar de naquela época eu já ter dado meus primeiros passos como ativista... Rs!), tratava-se de uma organização infantil na qual tínhamos reuniões, um jornal, um serviço de correspondência entre amigos (Sim, desenvolvemos um whatsapp de papel!), promovíamos festas, concursos de beleza, números de dança, pecinhas teatrais, gincanas e até mesmo viagens (os velhos piqueniques que reuniam famílias inteiras em um dia na praia ou na serra).

As pessoas vinham de outras ruas e até de outros bairros para prestigiar nossas apresentações feitas com figurinos de papel e música tocada em uma vitrolinha, tudo muito improvisado, mas feito com paixão. Éramos uns pequenos amantes da arte e da diversão que pouco nos importávamos quando esquecíamos a fala ou alguém faltava justamente em dia de estreia porque havia levado pau em matemática. Sem problema! Substituíamos nossa estrela por alguém da plateia e o espetáculo seguia sem maiores contratempos.

Lembro com especial carinho da semana das mães de 1988. Dissemos com muitos dias de antecedência que iríamos fazer a escolha da Mãe do Ano. As comadres se desdobraram em mais amabilidade e atenção com os próprios filhos e com seus amiguinhos, tudo pelos 15 segundos de fama. Para surpresa geral, na leitura do nome da felizarda (criamos toda a expectativa retirando um pedaço de papel de um envelope), revelamos que todas haviam sido contempladas com o disputado prêmio, que consistia em um botão de rosa e uma foto com seu filho, filha ou filhos. “Todas as mães são do ano”, dizíamos, abraçando-as satisfeitos.

Minha cabeça e minha alma viviam em constante estado de graça e produção criativa. Ainda vivo assim, impulsionado pelo mesmo frenesi que me acompanha há mais de três décadas. A infância me moldou em uma criatura inventiva, que raciocina com a possibilidade do impossível, um homem crescido que acredita em mágica e brinca com a sobrinha de seis anos como quem não teme levar um carão dos adultos por estar sendo ridículo. Se eu não fosse ridículo, você não estaria se divertindo com esse texto. E quero que você se divirta.

Fico meio receoso com as tecnologias que hoje substituem os amigos e os jogos interativos da infância. Sou louco por redes sociais, mas estas ferramentas de comunicação deveriam funcionar como meros acessórios das complexas relações humanas. Cada vez mais – principalmente jovens e crianças – se relacionam com a tela touch screen com a naturalidade de quem bate um papo na hora do intervalo, no pátio da escola, lado a lado, sentados no mesmo banquinho de madeira. Amizades nascem e são destruídas na velocidade de um torpedo. Os emoticons como carinhas sorridentes, beijinhos e bracinhos para cima não podem substituir uma relação autêntica. É por meio do convívio social diversificado e intenso que desenvolvemos nossa personalidade e nos tornamos adultos aptos a viver com humanidade e sensibilidade em um mundo cuja evolução emocional não vem mais da Terra do Nunca, do Sítio do Pica-pau Amarelo ou da Ilha de Lilliput, mas do Vale do Silício.

Acredito que o uso precoce destas tecnologias realmente seja capaz de formar adultos mais capacitados em muitos aspectos, porém duvido que traga algum benefício para a inteligência emocional daqueles que já nasceram ganhando página própria no facebook.

Crianças são computadores humanos inteligentíssimos e dotados de surpreendente capacidade de armazenamento e processamento de dados. Os pequenos tanto podem se beneficiar do último game da Sony como também de uma brincadeira no quintal com os primos e amigos, uma ida ao museu, ao teatro infantil ou de um simples passeio de carro em família. Quanto mais diversas as experiências, mais vasto e bonito será o mundo dos pequenos.

É desperdício de espaço permitirmos que os HDs infantis possuam somente diretórios voltados para a virtualidade das coisas. Com tantos gigabytes  de memória, as crianças podem vivenciar muitas e variadas experiências, associá-las, compará-las, compartilhá-las e, a partir disto, criar algo maravilhoso, novo. Por que negar aos pequenos aquilo de que lembramos com tanto carinho, muitas vezes com lágrimas nos olhos? Softwares não são substitutos para o contato com o outro.

No outro, reside o encanto, a surpresa, a novidade, a experiência enriquecedora. Em computadores, não há nada de novo, apenas aquilo que nós mesmos pusemos lá, como as fotografias que simplesmente esquecemos por não sabermos sequer em que pasta as salvamos.

 

07/08/2014, quinta-feira

 

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DA GRAÇA E NATURALIDADE DE SE SER VEADO

 

Acredito que poucas pessoas saibam como o substantivo “veado” tornou-se o desagradável adjetivo que comumente é utilizado para que certa leva de pessoas se refira a homossexuais masculinos, como se estes não possuíssem um nome de batismo. Bem, é sabido que gente preconceituosa e intolerante geralmente é desprovida de discernimento e quase não possui criatividade alguma, portanto precisam recorrer à observação de seus limitados, enrijecidos e metódicos cotidianos a fim de edificarem analogias capazes de realizar e projetar no mundo suas fobias sociais.

 

É bem provável que o termo “veado”, quando empregado para se referir a homens gays, tenha sido utilizado pela primeira vez em alguma floresta europeia ou norte-americana, onde ainda hoje o animal  em questão é caçado em grande escala. Fiemo-nos à hipótese de que um determinado caçador – valendo-se de sua generosa e infinita estupidez – estivesse em uma manhã qualquer de domingo a satisfazer suas sádicas taras mortuárias por meio da caça ao veado, o animal, não pelo valor de sua carne, mas pelo sabor do troféu. Digamos ainda que, durante a caçada, este homem de hábitos prosaicos, irredutível em sua colossal macheza, tenha conseguido se surpreender com uma cena extremamente corriqueira na natureza quando os veados se encontram em época de reprodução: Os machos têm inúmeras, repetidas e vigorosas relações sexuais entre si. Isto acontece porque, no período dos cios, os veados machos produzem muito líquido seminal. E, como não são todos que conseguem acasalar, eles se livram do sêmen acumulado nos testículos montando uns sobre os outros, a fim de aliviarem a carga de esperma. Acontece que, mesmo após o coito, muitos machos acabam criando laços afetivos e convivendo como um casal. Somando isso aos trejeitos delicados e graciosos do animal, o apelido foi vinculado à imagem do homem gay. 

 

Imagine quantos pensamentos devem ter passado na cristã, normal e bem resolvida mente de nosso viril caçador que, a fim de restabelecer a ordem natural das coisas, deve ter se especializado em caçar veados machos que praticassem sexo com outros de mesmo gênero. Quem sabe a prática tenha ganhado adeptos, deixado as florestas e chegado não só às pequenas e distantes cidades do interior, pois também os grandes centros – que, pensava-se, eram povoados apenas por homens de mentes abertas e pouco inclinados à caça predatória – desenvolveram gosto pelo hediondo esporte.

 

No meio deste processo de injustificável carnificina, o veado antropomorfizou-se, mas não adquiriu os direitos reservados a todos os seres humanos. Como seus colegas selvagens, o veado humano só pode existir até segunda ordem. Todavia, em desacordo com a regra que limita a matança dos veados quadrúpedes, para os bípedes não há temporada de caça proibida. Quando não são assassinados à custa de armas ou espancamentos, abatem-nos com o gesto doloroso, com a palavra agressiva e contumaz.

 

Não somos veados. A palavra não nos agride, é um belo animal, mas não somos veados. Ninguém pode usar da mesma arbitrariedade sobre nossas vidas com a qual caçadores conduzem o covarde abate destes animais.

 

 

Por todo o mundo, aquele que persegue e agride impiedosamente outro ser humano, muitas vezes é chamado de “animal”. Errado. Animais não matam por capricho, ignorância ou diversão. Tirar a vida de alguém ou privar uma pessoa de sua liberdade de ser são atitudes essencialmente humanas. Onde houver segregação, atrocidades, ou gestos de covardia, não se enganem, lá haverá não um animal, mas um homem. Seja ele veado ou não.

 

05/08/2014, terça-feira

 

 

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CARTA A JORGE LUÍS BORGES (Publicada pela Revista Plural - maio - Escrita contemporânea)

 

24 de Agosto de 2004

Instituto Oftalmológico Saphir Augen

São Paulo – SP, Brasil

 

Inumado Guardião de Histórias;

Antes de esclarecer o que pretendo com esta excêntrica correspondência, gostaria de apresentar-me, a fim de que não se torne a leitura de minha carta um completo exercício de estranheza. 

Graduei-me em Medicina pela Universidade Federal do Paraná, em 1982, e fiz três anos de Residência Médica em Oftalmologia na Faculdade de Medicina da USP, onde também me especializei na área de Cirurgia Refrativa. Depois disso, realizei treinamento em Cirurgia Plástica Ocular na Espanha e Estados Unidos. Tenho Doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e fui examinador de onze teses de mestrado e doutorado, além de possuir dezessete artigos completos publicados no Brasil e exterior. Em 2002, assumi o cargo de Diretor no Instituto Oftalmológico Saphir Augen, função que desempenho ainda hoje.

À frente do instituto, procuro obter o máximo de lucro financeiro, pois são muitos e dispendiosos meus vícios e frivolidades. Prestamos um serviço de oftalmologia avançado e eficiente, capaz de retardar o progresso de doenças oftalmológicas em nossos mais abastados pacientes que, por medo da cegueira, financiam nossos caros estudos. Costumamos dizer por aqui que trabalhamos com o nobre propósito de que se mantenham abertas as janelas da alma. Sim, eu sei como ganhar dinheiro. 

Por favor, não te enerves. Apesar de minhas credenciais e títulos, não estou interessado em tratar-te, Borges. Afinal, há pouco a se fazer pelos olhos dos cegos. O que poderia fazer eu, então, pelos olhos de um homem há dezoito anos falecido? Posso chamar-te simplesmente assim, Borges, como te citam até mesmo os teus mais vulgares leitores? Pronto. Dirigir-me-ei a ti sem maiores formalidades. 

Pergunto-me, enquanto redijo estas linhas, se algum carteiro de Genebra – talvez simpático à extravagância de um destinatário que reside no Cemitério de Plainpalais – deitará o envelope sépia aos pés da lápide que guarda tua sepultura. Poderiam os mortos ler, mesmo aqueles que morreram cegos? Deveria eu ter escrito a carta em braile? Tinhas intimidade com anagliptografia? Ou preferirias que, deitada sobre tua derradeira morada, Maria Kodama, tua arrogante viúva, lesse em voz alta o conteúdo das palavras que agora escrevo, mesmo que o verbo, há tempos, tenha abandonado teu corpo? Dizias tu que, caso um dia recuperasses a visão, não sairias de casa e permanecerias na companhia de teus livros. Tens agora a companhia de mortos dos quais tu não sabes sequer o primeiro nome. Deveriam ter depositado teu esquife em uma biblioteca, não em uma cova mortuária. Na morte, Borges, talvez os livros te pareçam mais vivos e vívidos que estes homens anônimos, sepultados. 

Que mal consumiu tuas vistas? Glaucoma? Retinose pigmentar? Por que teus olhos decidiram, desde o dia de teu nascimento que, paulatinamente, fechar-se-iam para as coisas deste mundo? Certo de que um dia ficarias cego, passaste a dar às palavras um significado transcendental, como se estas fossem símbolos mágicos, notas musicais de uma canção que toca a eternidade das coisas possíveis e inimagináveis. Incapaz de ver, seguiste adiante e desenhaste o universo a teu modo, com tintas ora escuras, ora claras. Algumas paisagens, memórias; outras, imaginação. Haverá algo de divino naqueles cujas chamas do tenebrário, lentamente, se extinguiram? Como o cego pode enxergar formosura em um mundo sombrio, do qual meus sadios olhos capturam apenas frialdade? 

Borges, o olho humano é uma máquina óptica perfeita, alojada no interior de uma cavidade óssea, protegido desta vida medonha por sensíveis e débeis pálpebras. Quando os olhos focam um objeto, a imagem chega primeiro à córnea, para logo em seguida atingir a íris. Daí, a íris redireciona a luz recebida através da pupila e, depois disso, a imagem chega ao cristalino e é focada sobre a retina. É de responsabilidade da retina transformar essas ondas luminosas em impulsos eletroquímicos que, ao final do processo, são decodificados pelo cérebro e transformados em horror.

Estranho, é nosso aniversário, o teu e o meu. Hoje, completo 55 anos, idade com a qual ficaste completamente cego. Coincidência? Talvez sim. Mas, ora, e o que não é fruto de uma? Meus olhos estão quebrados, Borges, e preciso que os conserte. Tudo vejo, mas nada enxergo, pois emoção nenhuma é captada por minha visão. Não percebo as coisas a meu redor, as pessoas me enfadam, as paisagens me aborrecem, nada que vejo me proporciona nem mesmo a mais tênue lufada de prazer. Estou cego. Sinto que já vim ao mundo assim, incapaz de sentir. Tenho os olhos desde minha infância vendados por magnífico desamor. Ensina-me a viver, gentil morto. Há algo de abominável em minha natureza, minha tétrade sombria, em que sadismo e narcisismo se misturam à psicose reinante em meu coração maquiavélico. Sou um homem mau, que apenas avia receitas e colírios, incapaz de escrever um poema, nem mesmo o mais invisível e insignificante versinho. 

Se eu soubesse o que me acometeria, jamais teria aceitado o convite de um colega e participado da palestra que ministraste no Curso de Madureza Santa Inês, em agosto de 1970. Eu contava 21 anos e já havia me estabelecido em São Paulo. Ambicioso e indiferente às urgências da alma, de repente, peguei-me assombrado por tua eloquência, ao citar Kipling. Ninguém fracassa tanto como imagina. Ninguém tem tanto sucesso como imagina. Além disso, o que importa o sucesso e o fracasso? No fim das contas, todos seremos esquecidos, o que, aliás, é melhor. Aquela declaração fez com que eu te odiasse enormemente. Senti vontade de fulminar-te. E, realmente, cheguei a fantasiar com teu assassínio. Quando retornaste à Argentina, ameacei-te de morte com um estúpido telefonema anônimo. Alguns anos depois, debochaste de minha investida ao conceder entrevista a um jornalista brasileiro. Não me envergonhei quando disseste que os assassinos são imbecis, pois, apesar de todas as minhas deficiências morais, limitações de caráter e ausência de afeição, acredito que a capacidade de matar alguém não figure em meu íntimo, ao menos não de modo literal. Eu pensava em subtrair-te a vida por crer que, morto o homem, também morreria o germe que plantaste em minha consciência naquele maldito dia e, assim, poderia eu retornar a meu estado inicial, em que eu não me importava. 

Há alguns meses, ceguei uma mulher, caríssimo Borges. Não, por favor! Não me tome por torpe carniceiro, leviano com as obrigações e cuidados exigidos por meu delicado ofício. Falo de outra cegueira, aquela contraída após vil traição, a que adoece salubres almas e as transforma em fantasmas queixosos, que se arrastam entre a esperança vilipendiada e a perda crônica das ilusões. Aquela mulher entregou-me seus olhos e eu os escondi em um lugar onde ela jamais os encontrará, enterrei-os no fundo de minha incapacidade de sentir. Hoje cedo, ela veio a meu consultório. Tateando às cegas, buscou meu rosto e meus lábios, declinei de suas desesperadas e passionais intenções, pedi que ela me deixasse. Antes de partir – ai, a vingança das mulheres feridas! –, ela atirou-me sobre a escrivaninha uma folha de papel na qual se encontrava escrito um texto de tua autoria, Uma Oração. Ao reconhecer aquelas palavras, um medo descomunal apoderou-se de mim. Temia que ela houvesse descoberto meu segredo: Eu, o pior dos cegos, aficionado por teus sóbrios escritos. Acreditava que, ao ler-te, restabelecer-se-iam a doçura e a alegria de existir que jamais experimentei. Devorei por anos teus livros – Elogio de la sombraEl oro de los tigresO AlephFiccionesHistoria de la eternidad –   repetidamente. Passeei por teus contos, perdi-me na Biblioteca de Babel, à procura de uma sensibilidade estrangeira, que me fora subtraída desde o nascimento. Sei de milhares de pessoas que veem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias, dizes tu em Uma Oração. Sou uma destas pessoas, Borges. Sou uma delas, mas não quero ser. Anseio tornar-me tal qual os cegos, que tudo sabem acerca daquilo que não veem; e adivinham – por meio dos sabores, dos cheiros, da entonação das vozes, dos espinhos – o mundo inteiro. 

Certa vez, disseste que uma das primeiras cores que somem com a cegueira é o negro. Desaparecem as trevas e também os tons escarlates, restando apenas uma neblina luminosa. Ficaste cego e, tudo que passaste a enxergar desde então, foram luzes azuladas e cor-de-rosa. Deixaste de ver rostos e palavras e começaste a enxergar movimentos. Minha tragédia é ver e não enxergar. O teu milagre é enxergar e não ver. Não há nada aqui para ser visto, Borges. Nossa humanidade não permite amizade ou amor, estes apenas podem existir nos livros que povoaram tua vida desde a infância. 

O tempo passa mais rápido quando estamos de olhos fechados. Portanto, velho, morreste jovem. Talvez com aquela idade perfeita, em que Adão saltou do barro e Cristo foi imolado na cruz. Viveste como um príncipe feliz, enquanto passo eu os dias a assistir a putrefação de meu próprio retrato. Anda, lírico Tirésias, levanta-te de tua tumba e ensina-me a enxergar com a alma, como fizeste tu a vida inteira, incansável Diógenes.

 

Miguel Libro da Silva

Oftalmologista

 

15/07/2014, teça-feira

 

 

 

CURTA METRAGEM: DOMINGO

"Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje, não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim."

 

AUSÊNCIA - Carlos Drummond de Andrade

 

10/06/2014, terça-feira

 

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ÀS VEZES OU QUASE SEMPRE

 

Por volta dos 13 anos de idade, pensei em tirar minha própria vida. Sim, é verdade, e não tenho vergonha nenhuma de falar sobre isso. Acho que esse fantasma, mesmo que em um átimo, acaba meio que passando pela cabeça de todos nós. Não cheguei a planejar, marcar a data, escrever uma carta ou algo do tipo... Não. Apesar de minha inegável inclinação à dramaticidade, apenas imaginei como seria e se realmente a morte me livraria de minhas infantes dores, de meus pesares. 

Pensei tanto sobre a possibilidade de uma planejada e prematura morte que o exercício me tornou capaz de percebê-la como um excesso, que nada me traria de benéfico e que apenas serviria para atormentar meus pais, irmãos, parentes e amigos que, muito provavelmente, sentir-se-iam culpados por não terem percebido ou feito algo para salvar-me de meu mórbido fetiche. 

Desde que superei minhas adolescentes fantasias suicidas, tornei-me corresponsável por todas as coisas que acontecem a meu redor. Não é mais simplesmente o mundo o grande e único culpado por minhas mazelas existenciais, mas eu mesmo. E, a cada espasmo cardíaco, tomo para mim um pouco mais desta responsabilidade, anseio sinceramente que um dia ela venha a ser apenas minha, e de mais ninguém. 

Ser totalmente responsável pela própria vida é uma tarefa que demanda um trabalho dos diabos.

Mesmo quando traído, enganado ou posto em segundo plano, não me sinto mais no direito de simplesmente imputar culpabilidade a outra pessoa pelo que me ocorre, mesmo que seja clara e incontestável qualquer ação danosa contra mim. Minha consciência afirma que as armadilhas deliberadamente postas em meu caminho passam a ser de minha propriedade no decisivo instante em que me deixo cair nelas, distraído. A distração, a bondade pela bondade, a inocência, nenhuma delas é virtude de pessoas crescidas. Na verdade, não passam de vícios, de subterfúgios. Pecamos ao achar que nada de ruim irá nos acontecer por nos acreditarmos justos, íntegros e bons. Afiançar-se bom talvez seja mais parecido com ser ruim que bom. 

Mas às vezes – ou quase sempre – é impossível administrar e aceitar a responsabilidade de tudo que nos acontece. Às vezes – ou quase sempre – parte do fardo que carrego se torna tão insustentável e violento que o desejo de morte me acena a sorrir, na esquina de minha juventude. Sorrio com pena da dúvida e sigo em frente, decidido. Devo esta coragem não somente a mim, logo eu, pobre homem: pequena coisa pensante jogada em um mundo tão mais antigo que qualquer um de nós e totalmente avesso ao pensamento. Devo parte desta coragem à arte. 

Sem a literatura, o cinema e a música, muito provavelmente eu teria emurchecido ainda jovem, pois minha percepção sempre captou de maneira muito intensa o que ocorre no mundo, e isso à vezes – ou quase sempre – dói. 

Apenas a arte é capaz de aplacar minha dor, de transformá-la ou de reciclá-la. Sem a capacidade criativa e imaginativa que a todos habita – mas que em alguns parece mais viva –, eu não teria suportado por tanto que culpei os outros, por tanto que me culpei. Não, eu não me mataria. Mas certamente, perderia a vitalidade, me tornaria um melancólico. 

Enlouquecer-me, perder a sanidade por meio da arte foi a única maneira que encontrei de não desistir deste mundo, de olhar nos olhos da morte e dizer: “Ah, não me amole com este papo de eternidade!”

 

05/06/2014, quinta-feira

 

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SORTEIO DE 3 LIVROS DE CONTOS "PALAVRA É ARTE"

 

SORTEIO DE 3 LIVROS!!! NÃO PERCA!

Olá meus queridos amantes e namoradas brincantes;

Recebi, ainda ontem, 20 (VINTE) exemplares da coletânea de contos organizada pelo Projeto Palavra É Arte, no qual publiquei os textos de minha autoria: ADEUS IRMÃOS, NÓ ORDINÁRIO e VIDA. 
Sexta-feira, dia 30 de maio, estarei sorteando 3 (TRÊS) livros e publicarei o resultado aqui mesmo no facebook até as 12:00 h. Os premiados também serão avisados inbox. 

Para participar do sorteio, basta que você escreva nos seus comentários “UM É MEU!” e curta a página do Embusteiro Viajante no facebook. 

Caso você não ganhe, não precisa chorar! Os outros exemplares serão postos à venda. Afinal, preciso de ajuda financeira para quitar meu débito com a editora... Rrrrsssss! 

BOA SORTE A TODOS!

 

28/05/2014, quarta-feira

 

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NÃO SOMOS SANTOS, MAS MERECEMOS RESPEITO!

 

Devido a procissão alusiva às comemorações do Dia de Nossa Senhora de Fátima, a logística do trânsito da cidade de Fortaleza foi brutalmente alterada, no dia 13 de maio, para garantir a segurança dos fiéis. 

Nas proximidades da Igreja do Carmo, local de onde saiu a procissão, o estacionamento nas ruas Major Facundo, Meton de Alencar e Barão de Aratanha foi proibido. Também foi bloqueada a Rua Major Facundo no cruzamento com a Av. Duque de Caxias. 

A procissão se iniciou às 18h e passou pelas ruas Major Facundo, Meton de Alencar, Barão de Aratanha e Av. 13 de Maio, que ficam interditadas no momento da passagem dos fiéis, sendo liberadas somente depois. 

Durante a realização da missa campal, após a procissão, a Av. 13 de Maio teve a pista nos dois sentidos bloqueada, entre a Rua Jaime Benévolo e o viaduto da Av. Pontes Vieira. Os desvios foram feitos pela Av. Luciano Carneiro e Rua Mário Mamede e pela alça do viaduto da Av. Aguanambi e Av. Eduardo Girão. 

Quem estava voltando do trabalho, enfrentou um verdadeiro inferno no dia sagrado. Independente dos transtornos causados por uma festa que não representa os fortalezenses (pois nem todos são católicos), o descaso com a classe trabalhadora seguiu sob as bênçãos da santa. Graças a deus. O bom andamento da comemoração religiosa também foi garantido pela polícia, boa cristã que é. Amém.

Dois dias depois da festa da fé, nova multidão ganhou as ruas de Fortaleza, desta vez para reivindicar o passe-livre dos estudantes. 

Um grupo de 600 manifestantes se reuniu na frente do Instituto de Educação e tentou seguir pela Avenida dos Expedicionários. Deparou-se com o mesmo braço armado que havia garantido o bom andamento da procissão da santa e o bloco foi impedido de passar. Houve confronto. Os policiais do BPChoque passaram a atirar bombas de efeito moral e alguns estudantes reagiram com pedradas. Os bíblicos Davi e Golias, em nova luta desproporcional e injusta. A polícia poderia ter deixado a manifestação seguir, pacificamente, poderia ter agido de boa fé, como na festa da santa. Mas preferiu transformar uma caminhada pacífica em um campo de guerra, a fim de desvirtuar o protesto aos olhos da sociedade. 

Parte dos policiais foi até a frente da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), pois existia a informação que o grupo iria protestar na frente do órgão. A fim de evitar novo confronto, os manifestantes desistiram de seguir para a Etufor – templo sagrado do descaso com a classe estudantil – e correram para o Instituto Federal de Educação e Tecnologia (IFCE). 

Os policiais foram novamente para a Avenida Treze de Maio, onde ocorreu o segundo confronto. Em sua guerra santa, o BPChoque utilizou bombas e balas de borracha para acabar com a manifestação e parte dos manifestantes se dispersou, mas um grupo – coagido pela polícia e também a fim de prosseguir com o exercício do direito de manifestar-se –  se viu obrigado a invadir o IFCE e permaneceu sitiado no local, durante três horas.

Os policiais fecharam a via e os ônibus, coletivos alternativos e automóveis que tentavam passar foram impedidos de continuar o percurso e voltaram ou realizaram um desvio. 

A situação causou um grande engarrafamento na Avenida Treze de Maio, de fazer inveja ao cortejo da santa. Sem desistir de lutar por seus direitos, mesmo que aprisionados em uma democracia de brinquedo, os manifestantes atearam fogo em pneus nas ruas para dificultar o avanço das tropas, que se revelavam cada vez mais cobertas de bênçãos e gestos celestiais. 

Por volta das 20h18 o BPChoque conseguiu retirar o grupo de manifestantes que estava fazendo uma barricada humana na via. O comandante da operação do BPchoque deu por encerrado a operação e destacou que a ação foi um sucesso. 

Somente um homem fardado e a serviço de um estado que se comporta ditatorialmente para considerar “sucesso” uma operação que visou impedir que jovens fortalezenses exercessem sua cidadania e se manifestassem nas ruas, como é natural em qualquer democracia, mesmo a mais embrionária. 

O mais curioso é que a população de Fortaleza – a mesma população que permitiu que uma festa religiosa privilegiada, em detrimento das demais religiões, parasse a cidade – demonstra hoje total antipatia pelo gesto dos estudantes, por lutarem por seus direitos, por não esperarem por milagres. 

Por que a polícia também não estava lá para garantir o bom andamento da manifestação? Onde estava a AMC que garantiu bloqueios e desvios a fim de garantir a Procissão de Fátima? Por que somos tratados como criminosos sempre que exercemos a mais bela manifestação de cidadania, que é ganhar as ruas, unidos, em um só grito? Apenas as demandas dos fiéis da santa merecem ser atendidas e tratadas com respeito?! 

Nós não queremos milagres, queremos justiça social! E não nos curvaremos sob a chibata da tropa de choque e nem sob os castigos divinos que, dizem alguns, merecemos. 

Se rebelar-se contra o que há de imoral e torpe na gestão de nossa cidade é um pecado, então que queimemos todos no inferno! 

Não somos santos, somos cidadãos e merecemos respeito. Estamos cansados de viver ao Deus dará. 

 

16/05/2014, sexta-feira

 

UMA PIADA SEM GRAÇA

 

É verdade, o Ceará é terra de gente bem humorada. 

E, devido a nomes de peso como Chico Anysio e Tom Cavalcante, o estado se tornou conhecido em todo o Brasil como fonte de talentos na arte do riso. Embora a ideia de que existe um Ceará moleque, gaiato, como incontestável identidade do povo alencarino, seja controversa, nossa história é pontuada por inúmeros casos verídicos – apesar de quase inacreditáveis – que ratificam essa ideia.  Meu estado cultiva a memória de vultos populares como o Bode Ioiô, que foi eleito, em 1922, vereador da cidade. Também Seu Lunga, de Juazeiro do Norte, conhecido por suas respostas cretinas a perguntas simplórias. Isto, sem falar da vaia ao sol dada pelos fortalezenses, em 30 de janeiro de 1942, depois de dois dias de chuvas intensas. 

Os cearenses – principalmente do sexo masculino, quando a fim de apenas brincar ou de realmente destratar alguém – utilizam-se de uma alcunha que, em nossa cultura, talvez seja uma das mais ofensivas. Cearenses – aqueles menos abastados, em sua maioria – odeiam ser chamados de “liso”. 

Liso é aquele sujeito que vive com sérias dificuldades financeiras, cujo dinheiro mal supre as necessidades mais básicas É alguém que não pode se dar ao luxo de possuir bens de consumo caros e da moda. É um fuleragem, um cu cagado

O povo cearense, em sua maioria, é pobre, portanto, somos quase todos lisos. Reconhecemos a nossa pobreza e, a única maneira de lidarmos com ela, é atribuindo-a ao outro. Pobre, é outro. Liso, é outro. No Ceará, a pobreza deixou de ser uma condição social e transformou-se em um estigma vergonhoso. Sendo assim, o cearense tem plena consciência de sua pobreza, mas não a assume, pois admiti-la é permitir-se ao escárnio. 

Então, assim, seguem meus conterrâneos: famintos, doentes, analfabetos, sem reclamar, rindo de tudo, fazendo troça. É como se nossa miséria cotidiana não fosse real, como se nossas mazelas apenas existissem em uma piada de mau gosto. 

Um povo que não assume sua própria condição, jamais conseguirá se livrar dela, por mais dura e insustentável que ela seja, pois, reconhecê-la, seria a única via de acesso para criticá-la e transformá-la. 

Enquanto nos envergonharmos de nossa condição social, continuaremos zombando de nós mesmos, ao passo que a elite que nos oprime continuará chacoalhando a pança adiposa, às gargalhadas. 

Somos quase todos lisos e isso não tem graça. Mas também não é motivo de vergonha. Admitir nossa liseira, parar de rir dela ou de enxergá-la apenas no outro, talvez nos transforme em um povo mais sério, menos abestado

Já passou da hora deste Ceará moleque crescer. 

 

15/05/2014, quinta-feira

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É POSSÍVEL AMAR QUEM, EM NADA, NOS ACRESCENTA?!

 

A literatura cristã propagandeia fartamente em suas publicações religiosas o amor pelos inimigos. Em Mateus 5:44,45, Jesus Cristo declara: “continuai a amar os vossos inimigos e a orar pelos que vos perseguem; para que mostreis ser filhos de vosso Pai, que está nos céus, visto que ele faz o seu sol levantar-se sobre iníquos e sobre bons, e faz chover sobre justos e sobre injustos”. 

Todavia, nós bem sabemos que inúmeras religiões cristãs ignoraram os conselhos de seu maior ídolo pop e marcaram a história do cristianismo com guerras e banhos de sangue. Somente a Igreja Católica, nos quatro cantos do Planeta, graças às Cruzadas e à Santa Inquisição, promoveu uma das maiores carnificinas da História Humana. Fogueiras eclesiásticas alimentadas por ódio e ignorância são acesas até hoje e anseiam queimar vivos não só homossexuais ou mulheres que abortam, mas também tostar usuárias de minissaia ou até mesmo quem se aventura a colocar um inocente piercing no nariz. 

Em 2012, o administrador da Igreja Metodista Unida – localizada na cidade de Portland, Oregon, EUA –, Kay Pettygrove, colocou na frente de sua congregação um cartaz que dizia: “Deus prefere ateus amáveis a cristãos com ódio”. Na época, o Reverendo Augustus Nicodemus considerou que a igreja se equivocou ao assumir que “diante de Deus, o ódio é pior que a incredulidade”. 

Bem, sou homossexual, ateu e luto por inúmeras causas que muitas igrejas abominam. Se eu houvesse nascido há alguns séculos, talvez eu já tivesse sido torturado, imolado, enforcado, guilhotinado, afogado ou esquartejado por meu estilo de vida, ideias e descrença religiosa. Como estamos no Século 21, escapei da morte certa – tomara que eu nunca tope por aí depois de uma balada com um homofóbico cheio de recalque e raiva! –, mas não de ser vitimado pela mesma ignorância que motivou o assassinato de milhares de pessoas que simplesmente pensavam diferente. 

Às vezes me dá uma raiva danada daqueles que dizem que eu vou para o inferno – não por medo dele, já que nele não creio. Me dá raiva porque ninguém deveria desejar que alguém fosse condenado a se tornar prisioneiro de um lugar que, acreditam alguns, existe e é terrível. Outros religiosos, menos radicais, não rezam para que eu seja fervido em óleo na morada de Satanás, querem apenas que um justo castigo caia sobre minha cabeça ou minha língua, que eu pague pelos pecados nos quais não acredito. 

Sabe, tenho amigos que frequentam a igreja católica, outros evangélicos, alguns umbandistas, espíritas, budistas e poucos ateus, como eu. Todos eles são pessoas que me acrescentam, que estão abertas para o diálogo e que não veem em mim uma ameaça ou alguém que mereça passar por dor e sofrimento, a fim de que, por meio de coação, eu passe não só a aceitar a existência de Deus, mas também a venerá-lo cegamente. Uma turma tolerante, amável e inteligente, que vive sua religiosidade sem desdenhar da crença ou da descrença dos outros. São pessoas diferentes de mim e que muito amo, em parte, por aquilo que não temos em comum, pois eles me abrem a possibilidade do novo, do diferente e minam meus próprios preconceitos.

Aqueles que me desejam o mal simplesmente por eu não partilhar de suas crenças não merecem o meu amor, e não irão tê-lo. Também não irão justificar seus atos à custa de meu ódio, pois não quero o mal de ninguém (talvez apenas dos fãs de Luan Santana, mas isso é uma outra história). 

Diferente de Castello Branco, talento musical ao qual fui apresentado nas últimas semanas, eu não tenho talento para amar quem não me acrescenta. 

 

12/05/2014, segunda-feira

 

 

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ENTÃO NÃO PAREÇO COM O QUE ESCREVO?

 

Recentemente, uma conhecida de um amigo meu, muito querido, enviou-me um convite a fim de que eu a acrescentasse à minha rede social. Como já é meio caminho andado ser próximo das pessoas que amo e admiro para se tornar alguém que eu venha a gostar com toda fibra, aceitei. 

            Já no primeiro dia, tivemos um contratempo devido à intimidade que cultivo por palavrões. Gosto de palavrões. Gosto muito. Mas os uso muito mais para elogiar que para desabafar alguma mágoa ou amenizar uma dor. Também quase não os utilizo para ofender. Mas, às vezes a raiva – apesar de péssima conselheira –, é a única que escutamos e, daí já viu: é uma chuva de impropérios que só servem para, dois segundos depois, me deixarem mal por duas semanas. 

            Se leio um texto que muito apreciei a forma, a estrutura, o lirismo, a cadência, enfim, quando me apaixono por algum trabalho literário, inevitavelmente direi em alto e bom som: “Puta que pariu, que texto do caralho!” É verdade! Este é meu elogio maior... Quem já o recebeu, sinta-se lisonjeado. Meus melhores amigos, os que mais admiro e amo, a todos chamo “cão do meu ódio”. Gosto de pegar palavras e expressões carregadas ou negativas e transformá-las em algo pra cima, divertido, engraçado, e sincero. 

            Pois bem. Minha nova colega virtual estranhou meu vocabulário, minha linguagem, a maneira com a qual me expresso( isto porque, inbox, falávamos sobre política e utilizei em uma frase a palavra “porra”). Pedi desculpas e evitei palavras de baixo calão. Afinal, eu não a conhecia, era mais que adequado que eu me valesse de uma linguagem mais formal ao lidar com uma pessoa estranha a meu círculo de amigos. 

            Tudo bem. Saímos da política e fomos para o entretenimento. Comecei a falar de barzinhos, quintal de amigos, rodas de samba, feijoada e filmes de terror. Sou louco por filmes de terror. Outro estranhamento. Daí, eu quis saber o que ela esperava de mim. Olhem só vocês... Ela me disse que eu não parecia em nada com a pessoa que tinha escrito os contos que ela havia lido no Recanto das Letras. Falou que me imaginava mais sério, com gostos mais refinados, com uma leitura mais profunda dos livros, das pessoas e do mundo. 

            Acho que foi o melhor elogio que já recebi na vida. Ninguém nunca havia me dito que meus textos parecem mais interessantes que eu. E olhe que me considero um sujeito apaixonante! Rs! 

            Acredito que a colega seja uma leitora voraz, uma apaixonada por literatura... Mas acho que ela entende pouco do universo daqueles que adoram escrever. Não sou nenhum acadêmico, literato ou intelectual, graças a Zeus! Não quero sobre mim o peso das responsabilidades de quem detém – ou parece deter – em si, conhecimentos profundos, herméticos, em uma esfera quase que espiritual, abstrata.

 

            Sou de jogar conversa fora, de rir tão alto ao ponto de deixar constrangido quem me contou a piada. Tomo porres homéricos com amigos cardíacos, choro assistindo Sessão da Tarde e nunca consegui ler Cem Anos de Solidão ou Guerra e Paz. 

            Todavia, já não me importo caso continuem me chamando de “carinha da boca suja”, contanto que minhas histórias permaneçam assim, diferentes de mim. Pois o que escrevo não são confissões, são pedacinhos de minha vida – todos soltos: um suspiro, uma casa pela qual passei, a água em meus pés na Praia da Taíba – e enormes blocos de vidas que eu detestaria ou adoraria ter vivido. 

            E quanto à minha nova conhecida? Não nos falamos mais desde então. Espero que ela ainda queira ser minha amiga. 

 

09/05/2014, sexta-feira

 

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O PRIMEIRO RAIO, TOCOU-ME...

 

Acabei de ler o primeiro capítulo de Lua de Papel, da escritora e editora Lunna Guedes. A primeira sensação que experimentei ao correr meus olhos pelo texto, foi saudade. Saudade de coisas pequenas, distantes, das quais em minha infância eu jurava que jamais lembraria quando crescesse. 

Um cheiro de mato, de terra e de fotografia em preto-e-branco. Um lugar habitado por “homens que são “pequenas ilhas” e por mulheres que são “pequenas cidades”. Quais destas ilhas serão habitadas? E quais destas cidades serão fantasmas? Esta é apenas uma das muitas questões que este primeiro momento em Lua de Papel me despertou. 

As palavras estão ali como se tivessem sido coladas, uma a uma, em um trabalho artesanal demorado e repleto de reflexão, de vozes ensimesmadas. Há silêncios perturbadores, que fazem gemer as poucas ruas e escassas esquinas. 

Estranhamente, apesar das pessoas e casas se revelarem imutáveis, imperturbáveis, tudo se descobre transitório, em uma narrativa sussurrada e repleta de delicadas efemeridades. 

Trata-se de um bom começo. As primeiras frases nos envolvem como névoa e, de repente, nos perdemos no lirismo desta obra literária que debuta em nossa expectativa de ávidos leitores, como um generoso pedaço de pão ofertado ao faminto. 

E, com os sentidos embaçados, nos guiamos pelo brilho deste origami lunar, que se desenha à medida que se dobra.

Abaixo, segue o link em que o 1º Capítulo de Lua de Papel se encontra disponibilizado: 

http://retratosdaalma.com.br/2014/05/01/lua-de-papel-primeiro-captulo-por-lunna-guedes/ 

 

08/05/2014, quinta-feira

 

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E VOCÊ? QUAL O SEU TRABALHO?

 

Há alguns dias, passamos pela comemoração do Dia do Trabalho. Sempre que esta data se aproxima, lembro-me de alguns amigos e familiares que, por toda minha vida, tentaram me demover da ideia de ser escritor. Sob o argumento fundamentado no que o capitalismo tem de mais destrutivo, eles me perguntavam, sinceramente preocupados: “De que maneira você pretende viver, caso realmente se torne escritor?” 

A fim de tentar formular uma resposta para esta obtusa e inconveniente pergunta, nas primeiras horas do dia 01 de Maio, resolvi procurar no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o significado das palavras TRABALHO, PROFISSÃO, EMPREGO e OFÍCIO. 

Segundo o glossário, uma das definições de TRABALHO é “qualquer ocupação manual ou intelectual”. Opa! Então escrever é trabalhar duas vezes, visto que me utilizo de minha mão esquerda e de meu intelecto para produzir textos literários. Nenhuma das oito definições que achei para TRABALHO no dicionário Priberam citava retribuição financeira como razão única e fundamental para que trabalhemos. 

Segundo o mesmo dicionário, EMPREGO é uma “ocupação remunerada e determinada a que alguém se dedica”. Portanto, escrever é um trabalho pelo qual não sou remunerado, mas que não deixa de ser trabalho por não me garantir recompensa financeira. 

Meu emprego está vinculado à minha PROFISSÃO, que é cuidar para que pilhas de processos não se amontoem sobre minha mesa e para que as pessoas recebam adequadamente suas indenizações por terem sofrido algum dano físico ou perda humana causada por acidente de trânsito. Logo, entende-se por PROFISSÃO “a ocupação remunerada que desempenho e que é de conhecimento público”. Todos sabem o quanto aprecio escrever, mas não entendem que escrever – ao menos para mim – não é uma profissão, mas um trabalho edificador e prazeroso, sem o qual eu não seria um ser humano feliz. 

Mais que um TRABALHO, escrever é um OFÍCIO, “um modo de vida, uma função, um fim, um destino, uma obrigação, um dever”. Sim, pois escrever também é algo que nos impomos a fim de que nos sintamos vivos, é um serviço que prestamos por nós mesmos e para nós mesmos: cansativo, exigente e enlouquecedor... Mas também repleto de satisfação e gozo, quando o concluímos. 

A caneta, o lápis e o teclado são minhas ferramentas. Com elas, trabalho em bares, ônibus, casas de praia, filas de espera, leitos de hospital, camas de motel, elevadores, bancos de praça. Mas, diferente dos Workaholics, aqueles caras viciados em trabalho, tenho uma qualidade de vida da qual poucos podem gozar, isto porque trabalho dentro de mim mesmo. 

E lá, dentro desta salinha, é arejado, tem uma janela e uma boa ideia sempre sorri para mim.   

 

06/05/2014, terça-feira 

 

 

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PROFESSOR

 

Em minha vida, tive excelentes professores e, alguns, nem tanto. Todavia, prefiro lembrar aqui daqueles que realmente me marcaram, pela vivacidade de suas oratórias, pelo amor à arte de educar, por me inspirarem e me transformarem em um ser pensante, questionador. 

 

Tia Railde, ainda na alfabetização, me dedicou tempo pessoal a fim de que eu aprendesse a ler e a escrever, artes que um dia me pareceram impossíveis de serem absorvidas. Foi a professora Edivânia, na 3ª Série, que percebeu que eu passava as aulas inteiras escondido nos fundos da sala, não para participar da bagunça da turma do fundão, mas para escrever sem que ninguém me amolasse. Foi ela que me apresentou livros mais sofisticados que os da Série Vagalume, me presenteou com Vidas Secas e, daí então, decidi o que queria ser na vida: escritor. Ainda não o sou, mas estou na estrada, procurando, procurando... 

 

Já no Segundo Grau, o Professor Sérgio Alencar me iniciou em Clarice Lispector, com sua subjetividade pulsante e suas magistrais entrelinhas; também me indicou autores internacionais e eternos, como Kafka, Dostoiévski, Victor Hugo, Edgar Allan Poe, Jane Austen, Italo Calvino, Patrick Süskind, Umberto Eco, dentre outros. Quando ingressei na Faculdade de Letras, a professora Coema, de Literatura Portuguesa, me iniciou na paixão pelos grandes escritores portugueses: Luís de Camões, Mariana Alcoforado, Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Eça de Queirós... José Saramago, este eu descobri sozinho. O professor Myrson Lima, de Estilística, me despertou para a poesia – gênero do qual sempre tive receio por não dominar sua criação – mas do qual, graças a este maravilhoso professor, me tornei grande apreciador. Ele me conduziu aos poemas de Cecília Meireles, Drummond, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Vinícius de Moraes, Olavo Bilac, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos... Ah, aprendi a sentir os versos atravessarem-me o coração desgovernado, apaixonado. 

 

A figura do professor, do mestre, sempre foi um forte referencial em minha vida. Quando conheci Marco Antunes – professor de Literatura, escritor e ator. Funcionário da Câmara dos Deputados desde 1991 e coordenador do Núcleo de Literatura no Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, onde ministra diversos cursos e oficinas e organiza os concorridos saraus da Câmara dos Deputados –, senti mais uma vez a oportunidade de ter junto a mim a figura marcante do orientador, do homem que nos inspira e nos desafia, que nos faz ir além de nossas expectativas em relação a nós mesmos. Graças a ele, na Oficina Desafios dos Escritores, aprimorei minha técnica e me permiti certas ousadias, como escrever textos epistolares. Meu primeiro romance jamais teria sido concebido sem o gênio crítico e vivaz desta criatura toda feita de entrega, generosidade e lirismo, um cavalheiro que transpira urbanidade, polidez e sabedoria. Talvez ele sequer saiba por que o chamo professor, pois que o mistério se desfaça nesse instante. Da mesma forma que minha professorinha de alfabetização, Tia Railde, dedicou seu tempo extra para me ajudar a superar minhas próprias limitações e fantasmas, o professor Marco Antunes também me serviu de armadura e elmo, foi para mim um tutor, um confrade, um guia. Portanto, como não chamá-lo professor? 

 

Meus outros mestres, estes eu conheci pessoalmente, tive seus corpos estreitados ao meu, em calorosos e incansáveis abraços de admiração e gratidão. Espero, em breve, realizar este sonho de menino, de aluno fascinado pelo mestre, e ter diante de meus olhos e ao alcance de minhas gratas mãos este homem singular, de fala mansa e potente, de olhos melancólicos que sorriem, dono de uma alma que mais parece uma cartilha: quem tem a oportunidade de lê-la, aprende. E cresce.

 

 28/04/2014, segunda-feira

 

 

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O MENINO

 

Pula, brinca, rola e sequer percebe que está crescendo. A voz, meu deus, que som horrível. Sua voz soa como o som do proibido. Os ossos estalam como a promessa do constante crescimento. O menino não para, sorri de tudo, e os fatos, por mais estoicos, transformam-se em breve brincadeira. Quase não mente, mas sua verdade é escorregadia, tem mil corredores, sua boca é como um oráculo sujo de inocência corrompida, onde os fiéis, coitados, procuram por soluções imediatas. Mas, para o menino, tudo não passa de saboroso entretenimento. Ele não pediu para ser santificado, não pretende nos mostrar o caminho, não será o redentor de uma nova ordem que - duvida ele - virá. Sem o menor constrangimento, brinca sobre a gramínea e sobre a guerra, tudo é razão para que ele desperte para a poesia mais esplêndida.

 

De mãos dadas com sua infância ainda tão presente, o menino não sabe, nem percebe e muito menos compreende que cresceu bem mais do que era esperado ou permitido. E todos, atônitos, ao contemplá-lo através de suas bêbadas percepções, resmungam saudosos e apaixonados: Era uma vez um menino. Era uma vez? Que tolice, que despautério tal conclusão. Ele sempre será esta imagem doce de maturidade indefinida e inacabada. Por mais que ele tenha crescido e teimado em abandonar o escafandro pueril no qual vivia, continuará para sempre infinito e aconchegado em poético colo uterino.

 

As gírias virão, eu sei, mas o bê-á-bá infantil estará eternamente inserido em sua língua contaminada pela lembrança de uma vida insana e bela que mais parece um berçário. Quem diria. Ele cresceu sem culpa e é incapaz de abandonar o melhor da primeira juventude, pois o umbigo literário ainda o prende à condição inicial.

  

Inevitavelmente, o tempo ainda operará sucessivas metamorfoses infanto-juvenis e, quando finalmente transformado em homem, ele terá problemas e seus cadernos se encherão de métrica e culpa. Tolice da natureza dotar o menino deste tal inevitável crescimento. Ele perpetuará em sua surpreendente história nos brindando com suas inocentes ideias perigosas, seu constrangimento escrachado e sua cabeça sã repleta de sonetos e loucuras.

 

25/04/2014, sexta-feira 

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UM DIA LOUCO TRATADO COM CAFEÍNA NA VEIA

 

Ontem, tive um dia daqueles. Cheguei de um feriado – onde a diversão em excesso me rendeu um enorme cansaço, que ainda não se dissipou totalmente – e caí de paraquedas no trabalho, terreno minado, muitas baixas de uma semana que deveria ser santa, mas pecou por seus abusos.

 

 

No trabalho, o telefone tocou insistentemente. Meu escritório parecia mais uma repartição pública. Muito serviço, muita gente, muito barulho, tortura chinesa logo no dia seguinte a um feriado brasileiro? Ninguém merece...

 

O almoço também não foi lá grande coisa. O pessoal da cozinha do Restaurante Ipueiras, não me pareceu muito inspirado. Fizeram comida de hospital para os moribundos do fim de semana prolongado... Nada mais insípido e irônico.

 

Retornar para casa foi como espremer-me em um minúsculo Cavalo de Troia, onde crianças choravam, evangélicos pregavam e mulheres conversavam mais do que eu merecia ouvir naquele instante que clamor por inexistência. Os fones de ouvido e a voz de Bárbara Eugênia me protegeram da algazarra, mas, o que fazer quanto ao calor senegalês? Tentei abstrair meu desconforto, esforço inútil. Sofri até chegar em minha casa onde, após demorado e necessário banho, minha mãe aproximou-se como quem adentra a jaula de uma besta africana e me estendeu um pacote entregue mais cedo pelos Correios.

 

Ao ver o nome de Lunna Guedes, constatei que era um exemplar da Revista Plural, o que, de imediato, me deixou eufórico e fez com que eu esquecesse as mazelas do dia.

 

Tranquei-me em meu quarto – clandestino, egoísta – e cortei com uma tesoura sem ponta a lateral do envelope. A revista saltou de lá de dentro como um presente de amigo secreto: surpreendente.

 

Eu não sabia que a Revista Plural possuía um formato tão carinhoso com seus leitores! A edição que tenho em mãos, intitulada Cafeína na Veia, foi impressa em formato artesanal que nos salta aos olhos em sua capa em papel couchê sem bilho e na costura oriental, que une com delicadeza e firmeza as páginas do periódico.

 

Hoje cedo, por volta das 06:20 h, só de pura vingança, sentei-me em um dos bancos da Praça da Polícia Civil – a mais arborizada e próxima de meu local de trabalho – e, primeiramente, devorei sem remorso um gordo sanduíche de ovo, queijo e presunto, acompanhado de um generoso copo de café com leite.

 

 

Satisfeito meu primeiro apetite, corri para os braços do outro e comecei a degustar as páginas da revista. A competência na escrita de seus colaboradores, a delicadeza das gravuras que dão movimento aos textos ali talhados por seus autores, com agudeza de artesão; enfim, tudo, tudo mesmo, se revelou primoroso, caprichado, responsável e extremamente sensível.

 

O próximo número que chegar a minhas mãos, trará um texto meu. Quando penso nisso, rio de contentamento. Eu, que sempre escrevi sozinho, agora fazer parte de um projeto literário que envolve tantas mãos, mentes e almas. É um privilégio pelo qual estou muito feliz e grato. Espero que meu trabalho mereça figurar dentre aqueles que li até agora.

 

23/04/2014, quarta-feira

 

 

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QUENGAS, RAIOS E QUERUBINS

 

Bem, como havia prometido a meu amigo Henrique Dal Bo Campanilli um conto baseado na história estapafúrdia que li em sua página no facebook, estou aqui para cumprir a promessa que começou a se desenhar na tarde de ontem, entrou pela madrugada e que, agora concluí. A suposta manchete tinha um delicioso cheiro de notícia criada, daquelas boas, que não tiram pedaço de ninguém... 

Segue o conto:

 

"Será como a destruição de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim, que o Senhor destruiu na sua ira e no seu furor."

Deuterônimo 29.23

 

            Deus é ruim de pontaria, Joelma – disse Maria Fernanda com meio sorriso nos lábios ao assistir mais uma de suas meninas deixar o Delícias de Iracema, melhor e maior puteiro de toda o litoral leste, marco sexual do município de Aquiraz – cidadezinha reconhecida como ícone geográfico da história do Ceará por ter sido a primeira vila da Capitania, criada por despacho datado de 13 de fevereiro de 1699 por ordem de El-Rei de Portugal.

 

            Desde o período colonial até os dias de hoje, pouca coisa mudou no comportamento dos homens daquelas bandas: Equilibram-se entre o sagrado e o profano tanto rapazes solteiros quanto bons pais de família que lá vivem, muitas vezes sem fazer a menor distinção entre um e outro. Há cabras que se confessam com putas. Há outros que dormem com padres. Resiste no meio masculino local uma excêntrica harmonia que põe as coisas carnais e as sagradas como destinadas ao mesmo fim. Para os cabras-machos de Aquiraz – ao menos no que toca a incessante busca do homem por satisfação pessoal – não importa muito se esta vem do comércio de indulgências ou da venda de lascívias.

 

            Porém, após a queda do raio que incendiou o telhado do Delícias de Iracema, suas animadas funcionárias e assíduos frequentadores, repentinamente, foram assaltados por uma súbita austeridade, repleta de rigorosos princípios cristãos. Apenas Maria Fernanda, dona do bordel e prostituta mais bem sucedida de sua geração, parecia imune ao sentimento de culpa que pairava sobre todos que trabalhavam em sua casa de diversão ou que frequentavam as alcovas do bem-querer e o bar de seu estabelecimento.

 

            A situação não estava nada favorável para a famigerada meretriz, que perdia mulheres boas quase todos os dias. Primeiro foi embora a Odete Baby, que resolveu voltar para casa e pedir perdão por ter se recusado a casar com um agiota e assim quitado uma dívida de jogo contraída por seu pai. A Bianca Perigo, antes de fugir durante a madrugada, disse à Sabrina Chambinho que havia desistido de abortar a criança que esperava de Dr. Aquicélio, teria seu filho em um convento e depois o entregaria para adoção. Já o Paulo Prensa largou seu trabalho de leão de chácara no cabaré e se tornou obreiro na Igreja Neopentecostal Renovação, onde ainda ontem o Mimi Ternura – que cuidava da faxina da casa – foi pedir ao Pastor Mário Pureza que tirasse o demônio de suas carnes e que lhe devolvesse a macheza subtraída desde o dia de seu nascimento. Pastor Mário Pureza... Este nome que passara a amargar na boca de Maria Fernanda mais que chá de alcachofra.

 

            O bordel e a igreja sempre mantiveram uma relação desrespeitosa, repleta de troca de maldições e impropérios. Nada que atrapalhasse o bom desempenho das funções de um ou de outro, principalmente porque boa parte dos homens que ajudava financeiramente a igreja era a mesma que sustentava as profissionais do sexo, inclusive no período do defeso. Mesmo que não pescasse, o macharal podia contar com a assistência financeira temporária do seguro desemprego para pescadores artesanais. Aquele dinheirinho que sobrava de inúmeras bolsas sociais também era investido em carnes glúteas fogosas e perfumados grandes lábios. Satisfeitas as esposas e as putas com a parte do soldo de seus homens que lhes cabia, evitava-se que o conflito tomasse danosas proporções.

 

            A guerra fria entre as casas de oração e perdição só se transformou em confronto declarado com a proximidade do Festival Internacional da Cachaça, evento ansiosamente esperado por todas as meninas do Delícias. Ter a cidade repleta de homens de todas as partes, embriagados e cheios de dinheiro para gastar, trouxe novo ânimo para o bordel da Fernanda, que viu na festa uma ocasião propícia para realizar a reforma que há tempos planejava. Sim, iria subir o puteiro. Aumentaria o bar e os banheiros, como também o espaço para as mesas e sinucas na parte de baixo da casa. Já no alto, construiria os quartos das suas protegidas, cada um decorado ao gosto de sua inquilina, o que estimularia as fantasias e apetites sexuais de sua clientela, permitindo a prática da usura na taxação dos preços do tira-gosto e da cerveja. Talvez comprasse um caça-níquel e enfeitasse a área social com um globo e jogo de luzes. Logo teria condições de aliciar garotas mais jovens e bonitas a fim de duplicar seus lucros antes que os evangélicos tivessem tempo de gritar “Aleluia”.

 

            A notícia da expansão do Delícias de Iracema espalhou-se desde Fortaleza a Praia do Barro Preto. Quanto mais se comentava sobre a reforma, mais andares ganhava o prédio e mais luxo se tornava seu interior, excitando o imaginário dos homens que passaram a tratar suas esposas com suspeita gentileza, acarinhando-as e presenteando-as com inusitada frequência. Assim, ganhariam o passe-livre para o festival e, consequentemente, se esbaldariam nos braços das loiras, ruivas, negras, brancas e morenas do cabaré da Maria Fernanda. Participariam do maior evento bocetesco desde os tempos de Calígula.

 

            Não tardou para que as carolas da Igreja Neopentecostal Renovação procurassem Pastor Mário Pureza a fim de que o mesmo tomasse uma atitude. Para elas, era inadmissível que um bordel se tornasse mais próximo do céu que sua própria igreja. Sugeriram que o pastor fizesse valer sua influência junto à prefeitura para que a obra fosse embargada. Motivos não faltariam para justificar a intervenção, afinal, burocracia e religião sempre encontraram maneiras pouco plausíveis – mas eficazes – para frear aquilo que lhes dá trabalho.

 

            Acuado pelas exigências das senhoras fiéis à fé que professava, o pastor pediu para ficar sozinho com Deus a fim de que o Criador lhe apontasse uma solução. Crédulas e confiantes, as boas mulheres abandonaram a igreja e retornaram aos lares onde seus maridos as receberam desconfiados, temiam que suas esposas houvessem encontrado uma maneira de comprometer a realização da obra de engenharia mais esperada desde a construção de Brasília.

 

            Sozinho em sua igreja, Pastor Mário Pureza viu-se preso em um dilema. Se conseguisse junto à prefeitura a proibição da continuidade dos serviços de ampliação do bordel, Maria Fernanda certamente revelaria o caso amoroso que mantinham secretamente há uns cinco anos. Se nada fizesse, provavelmente perderia seus fiéis para a igreja católica e teria que voltar a fazer pregações nos ônibus em troca de alguns trocados. O que fazer?O que fazer? Revolvia as ideias dentro de sua cabeça, combinava-as, organizava-as, mas nada lhe vinha à mente. Até que, prestes a desistir de tudo, uma solução brilhante iluminou seus pensamentos e o pastor suspirou aliviado, “Graças a Deus”.

 

            No dia seguinte, após as instruções de seu líder espiritual, os fiéis da Igreja Neopentecostal Renovação passaram a realizar uma campanha de orações de três turnos, todos os dias da semana, a fim de que Deus providenciasse uma solução divina para o problema do cabaré que, feito a Torre de Babel, desafiava os santos mandamentos e crescia na direção do céu. Os mais devotos e revoltados com a questão realizaram vigílias com orações e cânticos que duravam de meia-noite até as primeiras horas da manhã. Pastor Mário Pureza, assim, encontrou uma maneira de atender a demanda de seu rebanho sem trair a confiança de sua opiniosa concubina.

 

            Mas aí veio o raio e as luzes de sua ideia escureceram a sorte do libertino religioso. Tendo as novas instalações elétricas de sua casa destruídas pela força da natureza e a maior parte do telhado e quartos superiores consumidos pelas chamas do incêndio, Maria Fernanda decidiu que processaria a Igreja Pentecostal Renovação já que seus fiéis admitiam a responsabilidade pelo fim de seu negócio, supostamente arruinado pelo poder das orações.

 

            E assim aconteceu.

 

            Já na audiência de abertura do processo, tendo em vista a excentricidade da causa, o Dr. Arlindo Orlando – responsável pela 2ª Vara Cível de Aquiraz – comentou, após ler a reclamação da autora da ação judicial e a resposta dos austeros réus, que ainda não sabia como resolveria o caso, mas que não podia negar o que nos autos se revelava patente: De um lado do pleito, havia uma proprietária de bordel que declarava acreditar firmemente no poder das orações; e, do outro, fiéis de uma igreja inteira que desabonavam suas próprias preces, afirmando que as mesmas seriam incapazes de ter produzido o raio.

 

            Casado com um talentoso dentista, o advogado de Maria Fernanda desistiu da demanda antes mesmo da próxima audiência. Afinal, o único meio que sua cliente dispunha para pagar pelos serviços legais prestados não interessava a seu defensor.

 

            Na tarde em que Sabrina Bombom também partiu, Maria Fernanda sentou-se no bar e aproveitou a companhia de um maço cigarros e um litro de uísque barato. No dia seguinte seria realizado o bendito Festival Internacional da Cachaça e Fernanda se encontrava com sua casa vazia, cheia de dívidas com depósitos e madeireiras, traída e abandonada por seu amante, Pastor Mário Pureza. No auge da raiva, pensou em delatá-lo, mas foi demovida de seu intento por sua consciência, pois julgava tratar-se de um imperdoável crime prejudicar a quem se ama, ainda mais seu querubim.

 

            Bêbada, com a cabeça deitada sobre o balcão, Maria Fernanda acordou sobressaltada com o estrondo de um colossal trovão. Saiu na rua e, ainda atordoada pelo efeito do álcool, mijou-se de rir ao ver o teto da Igreja Neopentecostal Renovação em chamas, após a queda de outro raio.

 

            É, Joelma ... Deus é ruim de pontaria, mas não peca na justiça! – exclamou Maria Fernanda antes de receber em seus braços um combalido Pastor Mário Pureza, com a cabeça ferida por um caco de telha, a pedir-lhe perdão.  

 

16/07/2014, quarta-feira

 

 

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